domingo, 3 de julho de 2011

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 184

O PILOTO-MOR AUTORIZOU A ABERTURA DA BARRA À NAVEGAÇÃO

 Vapor de pesca por arrasto ESTRELA DO MAR / desenho de José Fernandes Amaro Júnior, 1935 /.

Desde o dia 20/12/1935, que não havia movimento de navegação na barra do Douro, devido à força da corrente de cheia e à maresia. A 07/01/1936, como as condições no rio e barra tivessem melhorado embora com alguma corrente forte de cheia e após sondagens do canal de navegabilidade, o piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão autorizou a abertura da barra à navegação, pelo que deixaram o porto comercial do Douro o vapor Inglês CRESSADO, piloto Hermínio Gonçalves dos Reis e o vapor de pesca Português ESTRELA DO MAR, piloto Joel da Cunha Monteiro. De entrada, passaram a barra, sem qualquer percalço, os seguintes unidades: navio-tanque Português SHELL 15, piloto Francisco Soares de Melo; vapores Portugueses PÁDUA, piloto Mário Francisco da Madalena; COSTEIRO SEGUNDO, piloto Elísio da Silva Pereira; OUREM, piloto Pedro Reis da Luz; Espanhol MARI CARMEN, piloto João Pinto de Carvalho; Vapor de pesca ESTRELA DO NORTE, piloto Aristides Pereira Ramalheira; Holandês AJAX, piloto Eurico Pereira Franco; Norueguês DOURO, piloto António Gonçalves dos Reis; Alemão SEVILLA, piloto José Fernandes Amaro Júnior e ainda o salvadego Dinamarquês VALKYRIEN, piloto Francisco Luís Gonçalves, que veio ao rio Douro tentar safar o MAUD LLEWELLYN. Fora da barra, ficaram a aguardar entrada para o outro dia, os seguintes vapores: Noruegueses AUD e BRAVO 1; Alemães AUGUST SCHULTZ, STAHLECK, BELLONA, KLIO e JOHNES E. RUSS; Ingleses SEAMEW e OTTERBURN; Norueguês HAVBRIS e o estoniano MINA.
Fonte: José Fernandes Amaro Júnior
(continua)
Rui Amaro

ATENÇÃO: Se houver alguém que se ache com direitos sobre as imagens postadas neste blogue, deve-o comunicar de imediato. a fim da(s) mesma(s) ser(em) retirada(s), o que será uma pena, contudo rogo a sua compreensão e autorização para a continuação da(s) mesma(s)neste Blogue, o que muito se agradece.
ATTENTION. If there is anyone who thinks they have “copyrights” of any images/photos posted on this blog, should contact me immediately, in order I remove them, but will be sadness. However I appeal for your comprehension and authorizing the continuation of the same on this Blog, which will be very much appreciated.

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 183

CHEIA NO RIO DOURO PROVOCA ACIDENTES
   
O NRP DIU tendo a máquina a trabalhar de marcha avante e amarrações reforçadas, a fim de aguentar as águas de cheia que o rio Douro levava em 12/1935, vendo-se também os vapores CRESSADO e SILVA GOUVEIA suportando a forte corrente. No cais da Arrozeira distinguem-se dois lugres fortemente amarrados, dos quais o segundo é o ADAMASTOR/ foto de autor desconhecido - colecção Francisco Cabral /.

A 24/1/1935, véspera de Natal, começou a formar-se um grande temporal de sudoeste, acompanhado de muita chuva, que perdurou nos dias seguintes. O rio Douro aumentava de volume das águas a níveis preocupantes, ao ponto de inundar as zonas ribeirinhas, com uma forte corrente a desenvolver-se e ancorados encontravam-se os seguintes navios, que mais se expunham ao perigo de rebentarem as suas amarras: lugre Português GEORGINA, no Sandeman; vapores Portugueses CATALINA, no Faria, e SILVA GOUVEIA, no quadro da Alfândega; vapor Norueguês OPHIR, no Jones; Ingleses CRESSADO, no quadro da Alfândega e o MAUD LLEWELLYN, no cais das Pedras.

 O MAUD LLEWELLYN enclhado junto de São Paio da Afurada, depois deter rebentado as amarras e ter sido levado pela forte corrente de cheia / foto de autor desconhecido - colecção Francisco Cabral /.

No dia 28, o nível das águas na Régua subira aos 14 metros e por precaução o capitão do porto ordenou que as tripulações daqueles navios se retirassem para terra. Às 17h00 desembarcaram através do cabo de vaivém a equipagem do MAUD LLEWELLYN, e o OPHIR é abandonado pelos seus tripulantes, salvo o capitão, que se recusou a sair e como tal permaneceu a bordo, contudo estando com a máquina a trabalhar de marcha avante para aliviar as retesadas amarras. Dois dias antes, os pilotos tinham mandado colocar duas "paixões" ou seja dois ancorotes espetados no pavimento da estrada, a fim reforçarem a amarração daquele navio com novos cabos. A tripulação do CATALINA veio para terra no bote de serviço. Os bombeiros municipais lançaram dois foguetões para bordo do CRESSADO e a sua tripulação foi desembarcada pela cesta-calção. Pelas 21h00, o comandante do NRP DIU, amarrado no quadro dos vasos de guerra, ao Bicalho, requisitou dois pilotos, tendo seguido para bordo os pilotos Manuel de Oliveira Alegre e Bento da Costa. No dia 29, pela 01h30 rebentaram-se as amarrações do MAUD LLEWELLYN, que foi de guinada ao sul, descaindo e quebrando as amarrações dos lugres Portugueses MARIA CARLOTA, ADAMASTOR, ANDORINHA e CLARA, pelo que estes navios foram sobre o cais da Arrozeira onde se aguentaram, mas a fragata FRAZ, da praça de Lisboa foi levada pela forte corrente, indo-se deter junto da pedra do Escorregadinho, Lavadores. Quanto ao MAUD LLEWELLYN, também foi rio abaixo até encalhar no lugar de São Paio da Afurada, diante da Fábrica do Açúcar. Ainda no dia 29, foi a vez do lugre ANDORINHA ir parar à Afurada e o lugre MARIA CARLOTA guinou ao norte, atravessando o rio foi abalroar o NRP DIU, e após ter sido libertado daquela canhoneira, foi sobre o lugre INFANTE, ficando atravessado na sua proa. Então, saltaram a bordo alguns tripulantes, que arriando as amarras fizeram com que os dois lugres ficassem libertos, contudo acabaram por encalhar na margem.

 Pormenores da cheia de 01/1935 junto do porto comercial do Douro, vendo-se o lugre-motor GEORGINA na margem de Gaia e o vapor Inglês CRESSADO junto do quadro da Alfandega / O Comercio do Porto /.

 Durante a noite, nos ancoradouros da Ribeira, Porta Nova e Vanzelleres, rebentaram as amarrações de vários piões de barcaças e estas foram rio abaixo, desaparecendo no mar revolto da barra, sem que antes não tivessem deixado de colidir com outras embarcações ancoradas junto das margens.
1935 ficaria lembrado como o ano das sete cheias.
Fonte: José Fernandes Amaro Júnior
(continua)
Rui Amaro


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segunda-feira, 27 de junho de 2011

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 182

ACIDENTE NA BARRA COM A TRAINEIRA ESPANHOLA "MARUJO"

A 14/12/1935 a traineira Espanhola MARUJO, que ao princípio da noite anterior, havia encalhado na penedia da Eira, à Cantareira, acabou por se safar pelos próprios meios e com o auxílio da subida da maré de enchente, cerca das 04h00. Após verificada a não existência de rombos ou de outras avarias, meteu piloto e saiu a barra, rumando a Marin, seu porto de armamento, sem mais percalços.
Aos camaradas, que após o encalhe, por falta de recursos para se hospedarem, andaram a vaguear pelas ruas da Foz, foi-lhes oferecido para pernoitar a estação de socorros a náufragos e a estação de pilotos da barra, tendo optado pela última, por se situar mais perto so local onde se encontrava a traineira acidentada. Aquele oferecimento deixou-os muito sensibilizados, ao ponto de na ocasião da largada terem dado alguns vivas, além de tocarem a sirene de bordo, repetidamente como prova do seu muito obrigado pela hospitalidade que lhes fora dispensada.
A traineira MARUJO, com mais outras três, NUEVO ARAGUAYO, TERCERO e OSCARCITO REAL, fora apresada pelo NRP DIU, canhoneira da fiscalização das pescas, por se encontrar a pescar em águas territoriais portuguesas, ao largo da costa de Viana do Castelo e com os faróis apagados, tendo o seu mestre e os seus colegas sido julgados pelo tribunal marítimo, que lhes aplicou multas que variavam entre 3.300$00 e 5.200$00. As quatro traineiras, enquanto detidas, estiveram amarradas no lugar do Bicalho com uma praça da NRP DIU embarcada, e após o pagamento das respectivas multas trataram de abandonar o rio Douro, sem a orientação de pilotos, tendo sido nessa ocasião que se deu o acidente.
Fonte: José Fernandes Amaro Júnior

terça-feira, 21 de junho de 2011

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 181

O "ALFERRAREDE" UM VAPOR CHEIO DE ADVERSIDADES



 A 03/12/1935, a barra do Douro está a ter um movimento de embarcações desusado, atendendo às boas condições de mar, que se tem feito sentir e sendo assim, entre muitas embarcações, demandou a barra do Douro o vapor Português ALFERRAREDE, que desde alguns dias se encontrava fundeado na bacia do porto de Leixões, na situação de “embargado” pela capitania, pelo motivo de ainda não ter pago a multa, a que o seu capitão fora condenado, por ter demandando aquele porto sem a presença de piloto da barra, infringindo por tal motivo os regulamentos da pilotagem portuária. Esta questão, que ainda não ficara resolvida dado o agravo feito pela Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, empresa armadora daquele vapor, deu motivo a grande discussão na classe marítima.
O vapor ALFERRAREDE para ser desembaraçado pela capitania do porto de Leixões, a fim de se dirigir ao rio Douro, teve de depositar uma caução naquela autoridade marítima por ordem da Direcção Geral da Marinha Mercante e não por ordem daquela capitania, que desde principio a não queria aceitar
Assim, o vapor ALFERRAREDE saiu do porto de Leixões e fez-se ao rio Douro, conduzido pelo piloto José Fernandes Amaro Júnior. Porém, quando aquele vapor, auxiliado pelo rebocador “VOUGA 1º”, passava junto do cais da Meia Laranja, local mais apertado da barra, devido ao areal do Cabedelo e a sua restinga estarem demasiado espraiados a norte. Assim, aquele vapor teve de se mover numa apertada curva para estibordo, a fim de ir safo das pedras do enrocamento do cais do Marégrafo, mas devido a um forte estoque de água desgovernou a bombordo mesmo com o rebocador a puxar para estibordo, não conseguiu obedecer ao leme, pelo que aquele piloto mandou largar o ferro de estibordo para aguentar a guinada e ordenou máquina de marcha à ré. Após algumas manobras com o rebocador sempre a puxar para sul, descativou a corrente do ferro, deixando-a por mão e seguiu para montante até amarrar junto da lingueta da Sociedade Geral, ao lugar do Monchique. Este vapor sempre foi de muito mau leme.
ALFERRAREDE - 73,91m/ 1.452tb/ 10 nós, foi lançado à água em 22/04/1905 pelo estaleiro Joh. C. Tecklemborg A. G., Geestemunde, por encomenda do armador Dampfs. Ges. Neptun, Bremen., que lhe deu o nome de PLUTO e o colocou no tráfego da península Ibérica. Em 1914, no início do conflito na Europa, foi internado no porto de Lisboa, tendo sido requisitado pelo governo Português e, consequentemente apresado em 24/02/1916, afim de fazer face à falta de transportes para abastecimento do país. A sua primeira tarefa, sob bandeira Portuguesa, foi ao serviço da marinha de guerra como navio lança-minas sob o nome de NRP SADO e em 1919 passou a fazer parte da frota dos TME - Transportes Marítimos do Estado, Lisboa. Entre 1923 e 1925 esteve ao serviço de dois armadores Portugueses, sob administração dos agentes E. Pinto Basto & Ca., Lda., Lisboa, até ser adquirido em 1927 pela Soc. Geral de Comércio, Industria e Transportes, Lda, Lisboa, que o matriculou com o nome de ALFERRAREDE.
Além de servir vários tráfegos, realizou várias viagens à Terra Nova, a fim de transportar bacalhau para o Norte do país, através do porto do Douro, principalmente na década de 40 e numa dessas viagens, encontrou e recolheu os sobreviventes do petroleiro Holandês LUCRECIA, torpedeado e afundado a 07/07/1940 pelo submarino alemão U-34, a cerca de 100 milhas para Oeste de Land’s End, Sudoeste de Inglaterra, quando em viagem das Antilhas Holandesas para o porto de Falmouth.
Em meados da década de 50 o ALFERRAREDE, devido a um forte ciclone, garrou e encalhou na praia de Algés, tendo sido safo com o auxílio dos salvadegos Portugueses PRAIA DA ADRAGA e D. LUIS, no dia seguinte. De véspera o PRAIA DA ADRAGA do armador do vapor sinistrado e o COMANDANTE PEDRO RODRIGUES, vapor dos pilotos da barra do Tejo, fizeram várias tentativas de desencalhe, porém a amarreta do último quebrou.
O ALFERRAREDE foi adquirido em 1961 pela armador Sofamar – Sociedade de Fainas de Mar e Rio, Lisboa, tendo o seu nome sido alterado para JOÃO DIOGO (1), que o colocou no tráfego costeiro nacional, transportando produtos siderúrgicos, desde as instalações da Siderurgia, Seixal, para o porto de Leixões e no regresso minério de ferro. Em 1963 em viagem do porto de Leixões para o rio Tejo, devido ao denso nevoeiro, encalhou ao norte de Peniche, tendo sido considerado perda total.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Lloyd's Register of Shipping, Dampfs. Ges. Neptun, Bremen; Imagem: Autor desconhecido – Navios Mercantes Portugueses.
(continua)
Rui Amaro

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SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 181

BARRA DO DOURO DE NOVO ABERTA À NAVEGAÇÃO


Dois sugestivos aspectos da barra do Douro em 25/11/1935, distinguindo-se à direita o grupo de bandeiras e disco içados no mastro do cais do Marégrafo, sinal convencionado para a entrada de vapores a reboque com calados não superiores a 15 pés de água, justificado por na ocasião da preia-mar sondar-se apenas 14 pés de água no canal de navegabilidade, diante do cais do Touro, conquanto a escala do Marégrafo, situada no pontal da Cantareira, registava 19 pés. Em face da situação vários vapores foram abrigar-se ao porto de Leixões ou seguiram viagem para outros portos, apenas tendo entrado sete vapores, entre os quais os que se vê na imagem: Em cima, o vapor carvoeiro Inglês MAUD LLEWELLYN, 76m/1.454tb, Cardingan Shipping, Ltd, Cardiff, piloto Júlio Pinto de Carvalho, que vai de guinada a bombordo, pelo que o rebocador LUSITÂNIA tenta trazê-lo a estibordo, a fim de entrar no canal e em baixo, vê-se o vapor Português SILVA GOUVEIA, 72m/958tb, Sociedade Geral, Lisboa, piloto Hermínio Gonçalves Reis, passando diante do dique da Meia Laranja, auxiliado pelo rebocador NEIVA.

A 25/11/1935, pelas 11h00, devido à agitação marítima ter decrescido, recomeçou o movimento marítimo na barra do Douro, tendo entrado, com rebocador à proa até ao lugar dos Arribadouros, os seguintes vapores: Noruegueses DOURO, piloto Aires Pereira Franco; BRAVO I, piloto António Gonçalves dos Reis; Ingleses MAUD LLEWELLYN, piloto Júlio Pinto de Carvalho; CRESSADO, piloto Elísio da Silva Pereira; ESTRELLANO, piloto Eurico Pereira Franco; Portugueses COSTEIRO, piloto José Fernandes Amaro Júnior; SILVA GOUVEIA, piloto Hermínio Gonçalves dos Reis e o Holandês TIBERIUS, piloto Francisco Soares de Melo. Haviam mais vapores prontos para entrar a barra, no entanto não o puderam fazer devido ao seu excessivo calado.
Fonte: José Fernandes Amaro Júnior; Imagem do jornal "O Comércio do Porto".

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domingo, 19 de junho de 2011

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO MDE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 180

MOVIMENTO MARÍTIMO NO DOURO E LEIXÕES COM DIFICULDADES DEVIDO AO MAU TEMPO, ASSOREAMENTOS E AOS DESTROÇOS DO PAQUETE “ORANIA”


 
MADRID


A 21/11/1935, grande maresia e ventos fortes soprando dos quadrantes sul, oeste e noroeste, rondando de direcção com frequência, além de grandes bátegas de chuva. Dadas essas condições de tempo a barra do Douro esteve encerrada à navegação, além disso encontrava-se bastante assoreada, pelo que estava interdita a embarcações com calados de água superiores a 15 pés à popa e 14 pés à proa. Alguns vapores tiveram de entrar no porto de Leixões, a fim de ratificar o seu calado ou aliviarem parte da sua carga, antes de demandarem o rio Douro.
Na bacia do porto de Leixões encontravam-se fundeados a aguardar melhoria das condições de acesso à barra, os seguintes vapores: Ingleses MAUD LLEWELLYN. JOYCE LLEWELLYN, AKENSIDE, CRESSADO e BRINKBURN; Portugueses ALFERRAREDE e PERO DE ALENQUER, e ainda o Holandês TIBERIUS. O paquete Alemão MADRID, 139m/8.777tb, que aguardava entrada no porto de Leixões, onde embarcaria alguma carga e um grande número de passageiros destinados aos portos do Brasil e do Rio da Prata, teve de seguir viagem rumo ao porto de Lisboa, por impossibilidade de demandar aquele porto nortenho, não só pela situação de mau tempo, que se fazia sentir mas também devido aos destroços do paquete holandês ORANIA, semi-submersa a meio da bacia, a qual dificultava a manobra de unidades de grande porte, desde o acidente que o vitimou a 19/12/1934. O vapor Alemão LAS PALMAS, que era esperado no rio Douro, não quis aguardar oportunidade de entrar no porto de Leixões e seguiu rumo do sul.
A 24/11/1935, pelas 13h00, seguiram para Leixões vários pilotos, a fim de embarcarem na bacia ou ao largo daquele porto nos seguintes vapores: Portugueses CORTE REAL, piloto António Gonçalves dos Reis; ALFERRAREDE, piloto José Fernandes Tato; Ingleses JOYCE LLELWELLYN, piloto Hermínio Gonçalves dos Reis; MAUD LLELWELLYN, piloto Júlio Pinto de Carvalho; AKENSIDE, piloto António Duarte; CRESSADO, piloto Aires Pereira Franco; Alemão TANGER, piloto José Fernandes Amaro Júnior; Norueguês DOURO, piloto Francisco Soares de Melo; Holandês TIBERIUS, piloto Elísio da Silva Pereira e o vapor de pesca de arrasto Português FAFE, piloto João Pinto de Carvalho, tendo sido este, pelo seu reduzido calado de água, a única embarcação a passar a barra. A todos os outros vapores foi recusada a entrada, não só devido à forte corrente de águas de cima, como ao estado lastimoso da barra.
Na hora da preia-mar, a escala do marégrafo do pontal da Cantareira registava 19 pés, todavia no canal de navegabilidade, diante do cais do Touro sondava-se 14 pés, pelo que aqueles vapores ou ficaram fora da barra ou abrigaram-se na bacia do porto de Leixões, aguardando melhores condições de acesso à barra do Douro em segurança e com auxilio de rebocador à proa, que também seria necessário para as largadas. Muitos daqueles vapores e outros, que entretanto apareceram à vista efectuaram as suas operações comerciais na bacia ou seguiram viagem para outros portos de escala.
Fonte: José Fernandes Amaro Júnior; Imagem: Hamburg Sudamerikanische.


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sábado, 28 de maio de 2011

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 179

O NAUFRÁGIO DO PAQUETE "ORANIA" NO PORTO DE LEIXÕES POR TER SIDO ABALROADO PELO PAQUETE "LOANDA"


 ORANIA / Postal oficial da Koninklijke Hollandsche Lloyd /.

O ORANIA, 142m/ 9.763tb, vindo da América do Sul com escala pelo porto de Lisboa, consignado aos agentes Orey Antunes & Cia, Lda, do Porto, aparecera à vista pelas 07h00 de 19/12/1934, e apesar do mau tempo que se fazia sentir, foi decidido dar entrada àquele paquete, dado que vinha desembarcar poucos passageiros e alguma carga, e como tal demoraria no máximo umas quatro horas. A lancha de pilotar P1 tentou, por várias vezes, fazer-se ao largo, contudo a forte maresia, cujos vagalhões se vinham desfazer em espuma entre molhes e nas praias vizinhas, galgando os dois paredões portuários, não permitia a sua saída, e às 12h00, conduzindo o piloto, saiu o rebocador MARS 2º, muito possivelmente levando a reboque a catraia P5 para manobras de abordagem, que o fez embarcar com sucesso e o ORANIA demandou o porto sem percalços, fundeando a meio porto a dois ferros, espaço exíguo, devido à aglomeração de outros 12 vapores e mais embarcações de pequeno porte e de seguida foi içado no mastro do castelo de Leça o sinal de porto encerrado.


 LOANDA / (c) Photo purchased from A. Duncan in the 60's - My own collection /.


 O paquete LOANDA, 127m/ 5.085tb, procedente do porto de Lisboa, que vinha receber carga para vários portos de Angola, sem que se previsse, e segundo consta, o seu capitão, um veterano nas suas vindas ao porto de Leixões, entendera que ele tinha prioridade sobre o ORANIA, por ter chegado anteriormente, e por isso não deveria ficar ao largo, só que demandou o porto sem a presença física de um piloto da barra, e ainda para mais com sinal negativo, já acima referido, que estranhamente parece não ter sido visível de bordo.
A bordo do vapor Norueguês BJORNOY, 80m/ 1.493tb, fundeado na covada do molhe Sul, que de véspera estivera à barra do Douro e devido à forte maresia não entrara, tendo-se ido abrigar à bacia do porto de Leixões, juntamente com mais 10 vapores, encontrava-se o piloto José Fernandes Amaro Júnior, meu pai, que permanecia a bordo, para orientar qualquer manobra de emergência, que viesse a ser necessária devido ao mau tempo, assim como os seus outros colegas embarcados nos outros vapores, testemunhara o naufrágio, e prevendo o desastre que se avizinhava, o meu pai chamou o capitão à ponte, e disse-lhe, o LOANDA vem com demasiado andamento e embalado pela ondulação não vai conseguir estancar, o espaço de manobra é curto e de certeza a sua proa vai entrar pelo costado, a meia nau, zona de caldeiras e máquina, do ORANIA, e vai ser uma grande tragédia, jamais vista neste porto e acrescentou, que ele mandasse preparar as baleeiras para prestar auxilio aos muitos náufragos, 158 tripulantes, 121 passageiros, e ainda um razoável número de pessoal de terra, e de regresso à ponte o capitão apareceu de máquina fotográfica, começando a disparar a objectiva.


O capitão Laurens Maars, do ORANIA, prevendo o embate, dá ordem para que todos a bordo se segurassem, enquanto o LOANDA, expelindo imenso fumo pela chaminé, vê-se diante do ORANIA, e sem espaço de manobra, de marcha toda força à ré, sem conseguir deter-se, larga os dois ferros, e embate estrondosamente no ORANIA por ré da ponte de comando, abrindo-lhe uma enorme brecha desde a coberta superior até a linha de água, por onde começa a entrar água a rodos, ao mesmo tempo que o seu capitão, conscientemente manda descarregar as caldeiras, a fim de evitar uma grande explosão. De bordo ergue-se um coro de gritos de pavor, nomeadamente dos passageiros, que procuravam socorro, apesar da tripulação se mostrar relativamente calma.

http://www.archeosousmarine.net/orania.html (Sequência fotográfica obtida pela objectiva do tripulante Kurt Baltschun, do vapor Alemão CEUTA e publicada na l'Illustration nº 4801 de 09/03/1935).

O ORANIA começa a adornar a bombordo, e em pouco tempo acaba de ficar completamente tombado e semi submerso. Todo o pessoal a bordo é salvo pelos meios de salvamento do vapor, por baleeiras de outros navios e por embarcações portuárias, incluindo o salva-vidas do ISN.
Em face da situação, o LOANDA foi intimado a abandonar o porto, assim como os vapores BJORNOY, OTTINGE, KRONOS, GONÇALO VELHO, MINA e ODYSSEUS, que se fizeram ao largo, tendo os respectivos pilotos desembarcado. Os vapores IBO, PADUA, CEUTA e MARIVALDES continuaram fundeados na Bacia, com pilotos embarcados.
Chegada a notícia do naufrágio à cidade do Porto e arredores, os cais de Leixões encheram-se de populares, e nos dias seguintes a romagem de curiosos continuava. Nas praias das proximidades do porto de Leixões, a guarda-fiscal coadjuvada pela PSP procedia a uma rigorosa vigilância, a fim de impedir que fossem "pilhados" por estranhos aos serviços marítimos, os materiais e restos de bagagens que o mar se tinha encarregado de arrebatar do interior do paquete. Também como é usual várias companhias de salvamento começaram a afluir ao porto de Leixões, dentre as quais a A/S Em. Svitzer's Bjerg, de Copenhaga, com o seu salvadego VALKYRIEN, que passado alguns dias tentou deslocar o ORANIA para área portuária que não obstruísse o movimento marítimo.




O destroço do ORANIA permaneceu por muito tempo, e por duas vezes flutuou e outras duas vezes se afundou, embora tivesse sido retirado do local do acidente, e diz-se que só não foi recuperado, devido a interesses alheios às autoridades marítimo-portuárias e ao próprio armador, a Koninklijke Hollandsche Lloyd (Mala Real Holandesa), de Amesterdão, que em 1935 abandonou o serviço de passageiros devido a um litigio com o porto de Leixões, tendo os seus outros dois paquetes, o FLANDRIA e o ZEELANDIA, e mesmo os navios de carga deixado de escalar portos Portugueses receando arresto dos mesmos, só regressando a Leixões, com um navio já na década de 70. Ao que parece o navio dava mais dinheiro no fundo, com a tentativa de recuperação, que a flutuar. Até que alguém disse basta! Daí que veio a ordem para o demolir.
Nos trabalhos de tentativa de reflutuação do ORANIA, e da sua deslocação para área que não obstruísse o movimento portuário, o que ocorreu por várias vezes, tomaram parte os salvadegos CABO ESPICHEL e CABO SARDÃO, do porto de Lisboa (AGPL).
A companhia Koninklijke Hollandsche Lloyd (Mala Real Holandesa) foi fundada em 1899, passando a dedicar-se ao transporte de gado desde América do Sul para a Europa. O comércio do gado terminou em 1903, quando o Governo Britânico proibiu a importação de gado vivo devido a um surto epidémico na Argentina e em 1906 a companhia voltou-se para o transporte de passageiros e emigrantes a partir do porto de Amesterdão com escalas nos portos de Boulogne-sur-Mer, Plymouth, Corunha, Lisboa, Las Palnas, Pernambuco, Baía, Rio de Janeiro, Santos, Montevideo e Buenos Aires, e mais tarde passou também a utilizar o porto de Leixões. Entre 1917 e 1919 a companhia também fez algumas escalas em Nova Iorque. O serviço de passageiros cessara em 1935 devido aos seus navios deixaram de escalar os portos Portugueses de Leixões e Lisboa, pelas razões já acima relatadas, portos tradicionalmente de emigração compensadora para o Brasil e Rio da Prata, mas em contra partida continuou e desenvolveu o serviço de carga para os portos do Brasil e Rio da Prata, e em 1981 foi incorporada no grupo Nedlloyd, através da KNSM.
ORANIA – 142m/ 9.763tb/ 2 hélices/ 14,5nós/ passageiros 154 1ª classe, 68 2ª classe, 120 intermediária, 850 3ª classe/ 02/1922 entregue pelo estaleiro Workman, Clark & Co. Ltd., Belfast, à Koninklijke Hollandsche Lloyd (Mala Real Holandesa), Amesterdão; 1922 iniciou a sua viagem inaugural ao Brasil e Rio da Prata, escalando Las Palmas, Pernambuco, Baía, Rio de Janeiro, Santos, Montevideo e Buenos Aires. Gémeo FLANDRIA.
LOANDA – 127m/ 5.085tb/ 10,5 nós/ 12/1900 entregue por Bremer Vulkan Werft, Vegesack, como WURZBURG à Nordeutscher Lloyd, Bremen, que o empregou no serviço de passageiros e carga para a costa leste da América do Sul; 03/08/1914 WURZBURG, internado no porto do Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, devido ao eclodir da 1ª guerra mundial; 1916 WURZBURG, requisitado e tomado pelo governo de Portugal; 1916 SÃO VICENTE, TME-Transportes Maritimos do Estado, EP, Lisboa; 1916 SÃO VICENTE, fretado pela Furness Withy; 1918 SÃO VICENTE, subfretado pelo governo de França como transporte de tropas; 1920 SÃO VICENTE, reentregue ao TME-Transportes Marítimos do Estado, EP, Lisboa;1925 LOANDA, Companhia Colonial de Navegação, Loanda; 26/08/1938 chegava ao porto de Genova para demolição.
BJORNOY – 82m/ 1.493tb/ 12 nós; 09/04/1908 entregue por Nylands Verksted, Oslo, como JUAN à D/S A/S Vestheim, Oslo; 1933 JUAN, Harald Olsen, Haugesund; 1934 BJORNOY, A/S D/S Bjornoy, Bergen; 1936 BJORNOY, A/S Trygg, Haugesund; 1937 REINA, Scotra Corp., Panamá; 1939 CASTILLO OLMEDO, Governo Espanhol, Cadiz; 1942 CASTILLO OLMEDO, Empresa Nacional Elcano de la Marina Mercante, Cadiz; 1944/46 CASTILLO OLMEDO, convertido em navio do cabo submarino; 06/1969 chegava a Barcelona para desmantelamento por SA Calado.

Relativamente aos navios demandarem o porto de Leixões sem a presença fisica de piloto da barra ou ao sinal, posso dizer, porque assisti a muitos casos, que até â década de 50, houveram navios que acabados de chegar ou estivessem fundeados ao largo, e afim de se abrigarem do mau tempo e mar que estava deteriorar-se, iam-se aproximando dos molhes e mais tarde do farol do Esporão e aí vinham debaixo de mar, riscando perigosamente na vaga, e raramente abortavam a manobra de entrada, e quando os pilotos, no seu posto de vigia, o antigo torreão do castelo de Leça, davam por ela, e corriam para a lancha de pilotar, no cais do Marégrafo, já o navio estava dentro da bacia, salvo se houvesse sinal de porto encerrado.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Lloyd´s Register of Shipping, Imprensa diária.
(continua)
Rui Amaro

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