domingo, 21 de abril de 2013

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 287


O PETROLEIRO “PENTEOLA” SOFRE INCIDENTE INSÓLITO NA BARRA DO DOURO

O PENTEOLA conduzido para Banática, Tejo, pelo rebocador NAUTICUS da CCN, após um incidente, finais da década de 40 /Imprensa diária/

Por volta do ano de 1948, numa tarde de névoa cerrada, cerca das 15h00, ao sul da barra do Douro, aí pelo lugar da Madalena, escutava-se uma sirene bastante conhecida, que era do pequeno petroleiro Português PENTEOLA, que navegava muito fechado com a costa, o que não era normal, que vindo do porto de Lisboa com gasolina, era esperado na barra Douro.
Em dado momento, já junto das pedras denominadas do Cão, já na povoação de Lavadores, muito perto do areal do Cabedelo da barra, nota-se que o navio começa a rumar para Oeste, pudera! Devem ter escutado o sino do farolim de Felgueiras, e há que manobrar para fora para não encalhar no areal ou no banco da barra, e pelo que mais tarde constou, bateu mesmo, por estibordo nas ditas pedras e sofreu um pequeno rombo, que não alterou a sua estabilidade.
Já antes, a lancha de pilotos, no meio da bruma, saíra a barra ao encontro do PENTEOLA para o desviar do perigo de encalhar, e para bordo salta o piloto Afonso Moreira, que orienta o navio para a barra, onde nesse local já havia visibilidade suficiente, que não impedisse uma boa navegação, e até porque a maré estava a chegar à preiamar, águas quase paradas, e o mar bastante calmo.
Eu, que me encontrava no cais Velho, junto da pedra do Touro, noto que o PENTEOLA guina bruscamente, sem motivo para isso, a bombordo sobre a pedra denominada da Gamela, a meia distancia entre o cais Velho e o dique da Meia Laranja, e apesar da minha tenra idade, tive a percepção que devido à carga que o navio transportava, poderia dar origem a uma explosão, e afastei-me do local, sem que antes visse o navio largar o ferro de estibordo, e manobrar de máquina toda força á ré, tendo o navio acabado por entrar no canal, não deixando no entanto de embater levemente na dita pedra, e quando o petroleiro segue para montante para acostar à prancha da Shell, junto da encosta da Arrábida, já fora de perigo, escuta-se uma grande algazarra na ponte de comando, que deveria ser entre o piloto, comandante e o timoneiro. Pois parece que houve ali um pouco de sofisma entre aqueles dois elementos da tripulação, para se provar que o rombo fora ocasionado na barra, só que o rombo estava localizado no bordo oposto. Certamente o piloto Afonso Moreira participou ao piloto-mor José Fernandes Tato, este por sua vez ao chefe do Departamento Marítimo  e o comandante do PENTEOLA deve ter apresentado o respectivo “protesto de mar” na capitania do porto do Douro.
Questionando o meu pai sobre o incidente, ele apenas me disse que o comandante e o timoneiro, devem ter ficado em “muito maus lençóis” não só perante a autoridade marítima  mas sobretudo perante o seu armador, e então com a companhia Shell?!
PENTEOLA  – imo 5100312/ 55,6m/ 554tb/ 10 nós; 03/1936 entregue por Van der Giessen & Zonen, Krimpen, a/d Ijssel, ao grupo Shell, ficando afecto à Shell Company of Portugal, Lisboa, no transporte de combustíveis ao longo dos portos da costa Portuguesa; 1951 FARO SHELL, Dansk Shell; 1956 PETER, Dansk Shell; 1957 ELA, G. Schlese; 1964 CARLOTTA, August Priolo; 1967 AGIA LAVRA, N. Thanapoulos; 1968 RODOS, P.C. Crissochoidos; 1970 chegava a Perama para demolição..
Fontes: Rui Amaro; Miramar Ship Index.
(continua)
Rui Amaro

ATENÇÃO: Se houver alguém que se ache com direitos sobre as imagens postadas neste blogue, deve-o comunicar de imediato. a fim da(s) mesma(s) ser(em) retirada(s), o que será uma pena, contudo rogo a sua compreensão e autorização para a continuação da(s) mesma(s) em NAVIOS Á VISTA, o que muito se agradece.
ATTENTION. If there is anyone who thinks they have “copyrights” of any images/photos posted on this blog, should contact me immediately, in order I remove them, but will be sadness. However I appeal for your comprehension and authorizing the continuation of the same on NAVIOS Á VISTA, which will be very much appreciated.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 286


OS VAPORES “SILVA GOUVEIA” E “MINIMO” – ex “MIRA TERRA” FORAM DESMANTELADOS PARA SUCATA NO RIO DOURO

O MINIMO ex MIRA TERRA já varado e o SILVA GOUVEIA a aguardar a sua vez. à direita vê-se a fragata DELMINDA da firma A. J. Gonçalves de Moraes, do Porto /F. Cabra, Porto/. 



O SILVA GOUVEIA já em fase de desmantelamento / F. Cabral, Porto /.


A 05/1954 demandava a barra do Douro a reboque, dois antigos vapores da Sociedade Geral de Comércio, Industria e Transportes, Lda, de Lisboa, ou sejam o SILVA GOUVEIA e o MIRA TERRA, este já com o nome de MINIMO, para aqui se proceder aos seus desmantelamentos, ao fim de 35 anos de intensa actividade, em particular ao serviço daquele importante armador, cujas cores mantiveram durante cerca de 26 anos.
O SILVA GOUVEIA foi retirado do serviço activo em 03/05/1954 e vendido para demolição, e o MIRA TERRA tinha sido abatido em 1952 e adquirido por J. Vasconcelos, Lda., de Lisboa, que lhe alterou o nome para MINIMO, tendo realizado apenas uma viagem, acabando por ficar encostado no porto de Lisboa.
Ambos os vapores vieram para o Porto comprados pela firma de sucatas Rocha Mota & Soares, Lda, sediada na Avenida Diogo Leite, 92/96, V. N. de Gaia, a qual tinha como uma das suas principais actividades a exportação de sucata para as aciarias do norte de Espanha, pois traziam ao rio Douro muitos navios espanhóis, que saiam atolhados, sobretudo de sucata de ferro, e chegaram a ter um grande espaço no cais de Gaia, onde armazenavam a sua sucata. Pois até, com o aparecimento dos fogões de cozinha eléctricos, o fogão a lenha e carvão de minha casa, também foi metido no porão de um desses navios.
Acontece que no porto comercial do Douro, ali para os lados da zona histórica ribeirinha Gaiense, onde se situavam os armazéns daqueles sucateiros, não existiam lugares apropriados para varar navios para desmanche, e o sócio gerente Paulo Soares foi tirar impressões sobre o assunto com o piloto-mor José Fernandes Tato, a fim de lhe indicar um local mais próximo dos armazéns, onde os dois navios pudessem ser varados.
Então, aconselhou-o a ir tirar pareceres com o seu inquilino e vizinho, o piloto José Fernandes Amaro Júnior, e de facto na vinda para sua casa, veio falar com o seu caseiro, que de imediato, lhe disse que o melhor lugar e mais próximo dos armazéns era o banco de areia de Santo António do Vale da Piedade, margem de Gaia, diante da igreja de Massarelos.
Chegados os dois velhos vapores, que foram habituais frequentadores do porto comercial do Douro, foram amarrados no local indicado pelo piloto José Fernandes Amaro Júnior, e pouco tempo depois, foi o MINIMO varado naquele banco e ai desmantelado, e de seguida o SILVA GOUVEIA.
O autor da narrativa, que se lembre apenas três outras unidades de algum porte foram desmanteladas para sucata e outros fins e isso depois da 2ª guerra mundial, ou sejam eles: rebocador AQUILA, estaleiro do Ouro; um caça-minas Inglês, caneiro da Ínsua do Ouro; um submarino Inglês, banco de Massarelos.
SILVA GOUVEIA - imo 5605879/ 72m/ 958tb/ 10nós; 10/1922 entregue por Schiffswerft & Maschinenfabriek ex Jansen & Schmillinsky, Geestmunde, como TAUNUS a Ubersee Reederei GmbH, Hamburgo; 1924 MAX WEIDTMAN, Henry Stahl & Co GmbH, Hamburgo; 1927 MAX WEIDTMAN, Weidtman Linie, GmbH, Hamburgo; 1928 SILVA GOUVEIA, Sociedade Geral de Comercio, Industria e Transportes, Lda, Lisboa; 05/1954 chegava ao Douro para desmantelamento em sucta.
MINIMO – imo 1144392/ 53m/ 510tb/ 9,5nós; 03/1919 entregue por Booy de Hoop, Leiderdorp, NLD, como POELDIEP a NV Hollandsche Vrachtvaart Mij, Roterdão; 1920 POELDIEP, Eclipse Shipping & Trading Co., Ltd, Londres; 1925 WESTMINSTER BRIDGE, Onslow Steamship Co., Ltd, Londres; 1926 PORTO, Sociedade Geral de Comercio, Industria e Transportes, Lda, Lisboa; 1926 MIRA TERRA, Sociedade Geral de Comercio, Industria e Transportes, Lda, Lisboa; 1952 MINIMO, J. Vasconcelos Lda, Lisboa; 05/1954 chegava ao Porto para desmantelamento em sucata.
Fontes: José Fernandes Amaro; Lloyds Shipping Register.
(continua)
Rui Amaro

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quarta-feira, 17 de abril de 2013


D I V U L G A Ç Ã O




domingo, 14 de abril de 2013

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 285

RECORDANDO A VINDA AO PORTO DO DOURO DO “NRP BARTOLOMEU DIAS” E DO “NRP TEJO” EM 1952



O NRP BARTOLOMEU DIAS amarrado no lugar do Sandeman, Gaia, rio Douro em 24/05/1952 /(c) Foto Mar, Leixões/.



O NRP BARTOLOMEU DIAS amarrado no lugar do Sandeman, Gaia, rio Douro em 25/05/1952, vislumbrando-se pela sua popa a proa do NRP TEJO /F. Cabral, Porto/.



O NRP BARTOLOMEU DIAS desce o rio Douro de rumo à barra em 02/06/1952 /F. Cabral, Porto/.




O NRP TEJO amarrado à bóia no porto de Lisboa, década de 50 /F. Cabral, Porto/.



A 24/05/1952, e a fim de prestar honras militares ao chefe de estado General Craveiro Lopes, de visita à região do Porto, onde veio presidir à inauguração de várias estruturas públicas e privadas, entre as quais o estádio das Antas, pavilhão dos Desportos, túnel da Ribeira, bairro dos pescadores da Afurada, mercados do Bom Sucesso e de Matosinhos, etc. deslocaram-se ao porto do Douro o NRP BARTOLOMEU DIAS, aviso de 1ª classe, 103,20m/2.478td e o NRP TEJO, contratorpedeiro, 98,15m/1.588td.
Dada a importância daquelas unidades navais, o piloto-mór José Fernandes Tato, reuniu todos os seus subalternos e decidiu, talvez por ser o mais antigo, que o piloto José Fernandes Amaro Júnior ficaria responsável pela pilotagem de entrada e saída do NRP BARTOLOMEU DIAS. No que respeita ao NRP TEJO pediu um voluntário. Ninguém se disponibilizou para tal! Então, o piloto Aristides Pereira Ramalheira toma a seu cargo esse serviço, que para ambos os pilotos seria efectuado fora da escala de serviço.
O NRP BARTOLOMEU DIAS, que chegara pela manhã de 24, dia de bom tempo, demanda a barra em 14 pés de calado cerca das 16h00, não antes do seu comandante ter chamado à atenção do piloto da barra para a responsabilidade daquele serviço. O piloto fez-lhe ver, que tudo iria correr bem, pois já dirigira manobras de navios de maior porte e calado sob péssimas condições de tempo e mar e nos muitos anos, que tinha de piloto da barra, jamais tivera qualquer acidente de vulto, pelo que não estivesse receoso. O imediato do navio, que era do Porto e conhecia bem a barra e o rio, também tranquilizou o seu comandante. Aquela unidade naval foi subindo o rio Douro até dar fundo a dois ferros, ancorote dos pilotos pela popa ao lançante para noroeste, e cabos estabelecidos para margem, no lugar do Sandeman, Gaia, tendo tido apenas a assistência das lanchas do rio P2 e P6. O NRP TEJO não tendo chegado a tempo da maré, demandou a barra no dia seguinte, indo amarrar pela ré do navio-chefe.
O NRP BARTOLOMEU DIAS, que foi a única vez que estivera no rio Douro, era gémeo do NRP AFONSO DE ALBUQUERQUE, perdido em combate no porto de Mormugão, contra uma potencial força naval e aérea da União Indiana, aquando da tomada dos territórios Portugueses da Índia a 18/12/1961, todavia sem arriar as bandeiras de combate de Portugal e fazer subir no mastro o pano branco de rendição, bateu-se até à última munição, apesar de uma única baixa e alguns feridos da equipagem, entre os quais o seu próprio comandante e dos danos sofridos, que originaram a sua perda, provocou avarias graves e várias baixas humanas à elevada força naval inimiga.
Aqueles vasos de guerra deixaram o rio Douro a 02/06/1952, tendo os dois pilotos da barra recebido um louvor pela eficiente condução das manobras de entrada e saída daqueles dois navios. Note-se, que não houve intervenção de qualquer rebocador, quer na entrada ou na largada daqueles vasos de guerra, que para o porto do Douro eram considerados de grande porte.
O NRP TEJO, assim como os seus gémeos DOURO, LIMA, VOUGA e DÃO, já por várias vezes visitaram o rio Douro e numa dessas visitas ficaram os cinco amarrados de braço dado, no quadro dos navios de guerra em Massarelos. Antes da guerra de 1939/45 eram os cabos-pilotos, que se encarregavam das manobras de entrada e saída das unidades navais, tanto no rio Douro como em Leixões.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Lista das unidades navais, Imprensa diária.
(continua)
Rui Amaro



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quinta-feira, 11 de abril de 2013

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E POR-TO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 284


O RAPAZIO DA CANTAREIRA E AS IDAS FORA DA BARRA NAS LANCHAS DE PILOTAR



As lanchas de pilotar P9 e P12, esta acabada de inaugurar, amarradas à bóia no ancoradouro da Cantareira, Foz do Douro, em 1962, e pela ré da P12 vê-se uma caíque dos Pilotos / foto de autor desconhecido - colecção F. Cabral /.

Era um costume antigo os cabos-piloto ou o mestre da lancha de pilotagem levar o rapazio até fora da barra, o que ainda hoje é recordado por muitos desses rapazes, das idas nas lanchas P1, P4 (1), P5 (1) e P9. O autor, na sua infância, muitas vezes tomou o leme da lancha P9 e sob orientação do cabo-piloto Aires Pereira Franco, do piloto José Fernandes Amaro Júnior, seu pai ou do mestre daquela lancha Eusébio Fernandes Amaro, seu tio, realizava a manobra de abordagem aos pequenos navios, a fim de embarcar ou recolher os respectivos pilotos, e consequentemente o regresso ao cais do Marégrafo. O mais complicado era chegar a mão ao manípulo do telégrafo. Além disso durante o percurso davam-lhe a conhecer os nomes das pedras e dos baixios, enfiamentos da barra e suas marcas em terra, etc.
Também, quando se apanhava a caíque dos pilotos fora de serviço, o rapazio saltava para dentro, e à ginga, ou seja manejando um só remo à ré, dava-se umas voltas pelas amarras do ancoradouro da Cantareira, ou de paneiro ao alto servindo de vela, lá se ia aproveitando o vento fresco da barra, mas o pior é quando se regressava à lingueta dos pilotos, as mãos estavam cheias de bolhas. E, que me recorde, jamais houve qualquer acidente.
Nesses tempos Portugal andava virado para o mar, mas agora, com tanta exigência e fiscalização, nem pensar a aproximação às embarcações!
(continua)
Rui Amaro


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domingo, 31 de março de 2013

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 283


UM CASO INSÓLITO COM A LANCHA DE PILOTAR “P9” NA BARRA DO DOURO


A P9 em serviço de pilotagem ao largo da barra em 1955 /Diário do Norte/ 


A P9 sai a barra com vazante brava para recolher o piloto do n/m Holandês LAUWERS em 25/04/1967, vendo-se o marinheiro Fernando Nené /Rui Amaro/. 

A 26/03/1952, pelas 11h00, encontravam-se fundeados ao largo da costa cinco navios, aguardando maré e piloto para demandar o rio Douro e o mar na barra estava a crescer e a tornar-se perigoso. Vários barcos fanéqueiros e bateiras do lugar da Afurada, que tinham saído de madrugada para a pesca, estavam a regressar e a tentar fazer-se à barra, aproveitando alguns lisos de mar. Viam-se também algumas bateiras do lugar da Aguda, que impossibilitadas de varar na sua praia devido à forte rebentação, vinham de arribada para o lugar da Afurada.
A lancha P9 vai para a barra tentar a saída, a cujos comandos está o cabo-piloto Aires Pereira Franco, tendo a seu bordo os tripulantes: Eusébio Fernandes Amaro, mestre; Joaquim António da Fonseca, motorista; António Guerra Gomes, marinheiro e ainda seis pilotos, cinco dos quais iriam embarcar e conduzir de entrada aqueles navios.
Ao longe, a noroeste, no baixio das Longas, vislumbra-se a ondulação a crescer, assustadoramente, a qual acabando por quebrar, desfazia-se em espuma na boca da barra, mas logo de seguida surge um liso de mar traiçoeiro, e é então, que a lancha P9 investe contra a ondulação, com o motor a trabalhar ao máximo, e tão depressa segue na crista como desaparece no vão dos vagalhões, conseguindo assim vencer os cerca de trezentos metros da zona de rebentação. Algumas das pequenas embarcações de pesca, à força de remos, conseguem entrar a barra a muito custo, outras vendo a rebentação a aproximar-se, desandam e aproam à vaga, escapando para o largo, a fim de aguardarem, para lá dos quatrocentos metros, um próximo e tão esperado liso de mar na barra.
A lancha P9, acaba de distribuir os pilotos pelos seguintes navios: iates-motor Portugueses VITORIOSO, piloto Bento da Costa; MARIA ISABEL         2º, piloto António Duarte;TEÓFILO, piloto Cristiano Machado; navio-motor Belga MARCEL, piloto Eduardo Fernandes Melo e o Alemão LATONA, piloto João dos Santos Redondo. Na lancha fica o piloto José Fernandes Amaro Júnior, que seguira a bordo para embarcar em qualquer navio, que eventualmente estivesse à vista.
Terminado o serviço de pilotagem a lancha P9 vem para próximo da barra e fica a pairar por fora da rebentação, a fim de prestar assistência às pequenas embarcações e a aguardar uma aberta de mar para demandar a barra. A maresia parece não dar qualquer trégua por mais tentativas, que o cabo-piloto Aires Pereira Franco faça. Por vezes vêm-se alguns andaços de mar a formarem-se ao longe, pelo que aquela lancha e os barcos de pesca fazem-se mais ao largo.
Entretanto, a lancha P9 aproxima-se da barra e, surpreendentemente no mastro do castelo da Foz é içado a bandeira da letra N, que serve de aviso do piloto-mor ao cabo-piloto para não tentar a barra e seguir para Leixões e novamente a lancha retrocede para fora, no entanto as outras embarcações não desistem de entrar a barra. Vinda do porto de Leixões, aproxima-se a lancha P1, timonada pelo cabo-piloto Francisco José de Campos Evangelista, que traz ordens do piloto-mor José Fernandes Tato para a lancha P9 não se fazer à barra. O cabo-piloto Aires Pereira Franco, o seu colega José Fernandes Amaro Júnior e os tripulantes da lancha, homens tisnados e conhecedores natos das manhas da barra desde a sua infância, é que não desistiam de entrar a barra.
Como o mar voltasse a dar lisos e alguns barcos de pesca já tivessem passado a boca da barra, o cabo-piloto Aires Pereira Franco faz-se à barra e logo a seguir ouve-se o troar dum tiro de canhão, que abalou a Foz toda, disparado do castelo, por ordem do piloto-mor José Fernandes Tato, situação que a bordo foi difícil de entender, dado que outras embarcações estavam a cruzar a barra com mais ou menos dificuldade e a lancha P9 e a mesma equipagem, em situações idênticas ou de naufrágios, é que lhes prestava assistência ou as socorria. Aliás foi a única ocasião, que a ordem dada pela bandeira da letra N, a vinda da lancha de Leixões e sobretudo o tiro de canhão fora dado a uma embarcação dos pilotos.
Entretanto vinha de saída o navio-motor Português Secil e após se ter recolhido o piloto Aristides Pereira Ramalheira, com todas as outras embarcações já dentro da barra a salvo, aproveita-se uma aberta de mar e pelas 13h30, a lancha P9 demanda a barra, riscando na vaga, contudo sem sofrer qualquer percalço e logo a seguir começaram a entrar os cinco navios, que a lancha tinha ido pilotar, tendo um ou outro sido fustigados por alguns andaços de mar, que felizmente não lhes perturbaram a sua navegação.
P9 - Em 17/06/1997, quando a lancha de pilotos FOZ DO DOURO ex P9 prestava assistência de pilotagem a um navio graneleiro, a cerca de duas milhas a noroeste do porto de Leixões, e sem que nada o fizesse prever, afundou-se com a água aberta, possivelmente devido a colisão com algum objecto submerso, tendo sido considerada perda total. Na embarcação seguiam o mestre e o motorista, que foram salvos por um rebocador da APDL, que pairava nas imediações. Ainda se aventou a hipótese de trazer à superfície aquela lancha e por conseguinte tratar da sua recuperação, simplesmente a despesa com tal operação era demasiada e não compensava, mesmo com o valor atribuído pela companhia seguradora.
A lancha Foz do Douro estava mais identificada como P9, pois durante muitos anos esteve colocada na Cantareira ao serviço da pilotagem da barra do Douro. Era propriedade do Instituto Nacional de Pilotagem dos Portos (INPP), desde 1978, ano em que deixou de ostentar o nome de P9, tendo sido construída num dos estaleiros de Vila do Conde em finais 1947, pelo construtor naval portuense António Gomes Martins, proprietário do vetusto estaleiro do Ouro, que se situa na margem direita do rio Douro, por encomenda da Corporação de Pilotos da Barra do Douro e Porto Artificial de Leixões. Foi registada na capitania do porto do Douro com a designação de P9 e veio preencher o lugar da lancha P4 (1), que se perdeu por afundamento, junto do enrocamento do cais Velho, a cerca de cem metros da pedra do Touro, na madrugada de 22/04/1947, depois de ter sido levada pela vazante, devido ao rebentamento das amarras, quando se encontrava no seu ancoradouro da Cantareira.
A lancha P9, que era uma embarcação da máxima confiança da sua equipagem e dos pilotos, devido ao seu poder de manobralidade de enorme leveza, sendo considerada uma das melhores embarcações de pilotos para a barra do Douro, até ao aparecimento das novas lanchas rápidas, sobretudo na abordagem aos navios mas também em situações de fortes correntes e estoques de água, além da perigosa ondulação da barra do Douro. Aquela lancha tinha de comprimento 12,14m e deslocava 17,36tb, e à data do seu lançamento à água estava equipada com um motor a diesel de 120 HP Crossley. Em 1953 foi completamente modernizada, acima do convés, e foram instalados modernos meios de navegação, como radar, sonda e radio-telefone e um novo motor.
Nos primeiros anos da década de 50, quando a lancha P9 se dirigia para a barra, sob denso nevoeiro, devido a avaria na agulha de marear, encalhou na penedia da praia do Ourigo, tendo sido safa de imediato pelos seus próprios meios, sem qualquer avaria.
A 12/09/1953, pelas 16h00, a lancha P9, a cujo leme estava o cabo-piloto interino José Fernandes Amaro Júnior, retirou da penedia a sul da praia de Gondarém e rebocou até perder a terra de vista a carcaça duma baleia, que dera à costa dois dias antes. Chegado ao local de abandono, foi a mesma desfeita a tiros da metralhadora de uma das lanchas de fiscalização das pescas.
A 25/11/1968 rebocou para Leixões desde sete milhas a oeste de Espinho, o iate de competição Italiano GANCIA AMERICANO, cujo proprietário e único tripulante, devido a doença grave andava à deriva, tendo à chegada a Leixões sido conduzido para um hospital, onde foi tratado e salvo.
Desde a sua entrada ao serviço prestou relevante apoio, como alternativa ao material flutuante do Instituto de Socorros a Náufragos, na assistência a embarcações em perigo e no resgate de náufragos. Honra seja feita ao abnegado e corajoso pessoal da sua equipagem.
Além das lanchas P4 (1) e FOZ DO DOURO ex P9, também as lanchas P1, P5 (1), catraia da assistência ou do piloto-mor, a P7, e uma outra catraia no caneiro de Carreiros, perderam-se por afundamento ou sofreram acidentes graves e em alguns casos com preciosas vidas tragadas pelas águas revoltas da problemática barra do Douro e suas áreas adjacentes.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Imprensa diária.
(continua)
Rui Amaro

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quinta-feira, 28 de março de 2013

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 282


 O PAQUETE PANAMIANO “NORTH KING” LEVA O PILOTO DE LEIXÕES PARA LISBOA


Anúncio na imprensa diária 

A 28/01/1951, dia de temporal e muito mar, que se abatia sobre os molhes, e investia perigosamente pela Bacia dentro, e cerca das 11h30, o piloto José Fernandes Amaro Júnior, foi dar saída ao paquete Panamiano NORTH KING, agenciado prls firma E. A. Moreira & Cia., Lda, que entrara de véspera, já com bastante mar, vindo do Brasil e Lisboa, com passageiros e carga diversa, e escalando o porto de Leixões, pelo mesmo motivo, a fim de receber carga e passageiros, na sua maioria emigrantes, para os portos do Rio de Janeiro e Santos, com escala pelos portos de Lisboa, Funchal e São Vicente de Cabo Verde.


O NORTH KING demandando a doca nº 1 do porto de Leixões em 1951 / F. Cabral, Porto /.

Realizada a manobra de desatracação da doca nº 1 – cais Norte, assistido por dois rebocadores da APDL, fez-se de rumo a entre molhes, onde aquele prático deveria desembarcar, ainda no anteporto, para a lancha P1, que foi acompanhando o NORTH KING na tentativa de recolher o piloto, mas a ondulação nesse mesmo ponto era de perigar, e o piloto não quis arriscar, pelo que seguiu a bordo para desembarcar na gare marítima de Alcântara  do porto de Lisboa, no dia seguinte, regressando de comboio à estação de São Bento, cidade do Porto, nesse mesmo dia, depois de almoçar e passar pelo escritório do armador.
A viagem foi bastante tormentosa, não só devido ao desconforto motivado pelo balanço que o vapor dava, mas  também pelo gemer dos passageiros dos camarotes vizinhos, que não conseguiam evitar o sempre incomodativo enjoo de mar.


O NORTH KING nos primeiros anos como paquete / postal oficial do armador /.


NORTH KING – paquete de linha de carga e passageiros, imo 2222653/ 119m/ 4.608tb/ 11nós; 06/1903 entregue por Bremer Vulkan, Vegesack, como vapor de carga LIEBENFELS à DDG Hansa, Bremen; 01/08/1914 refugiou-se e ficou internado em Charleston, SC, devido ao eclodir da 1ª guerra mundial, a fim de evitar ser atacado e afundado pelo inimigo; 01/02/1917 com a entrada dos EUA no conflito, foi de imediato apresado pela “Navy”, contudo sabotado e afundado pela tripulação Alemã; 20/03/1917 foi posto a reflutuar e entretanto reparado; 06/04/1917 foi convertido em transporte militar e rebaptizado com o nome USS HOUSTON (AK-1) e entregue à US Department of the Navy, Washington, DC; 23/03/1922 decomissioned; 27/09/1922 NORTH KING, Alaska Portland Packers Association, Portland, OR, gestores Frank M. Warren; 1929 NORTH KING, Pacific American Fisheries Inc, Bellingham, USA; 1940 NORTH KING, Compañia Diana de Vapores SA, Panama; 1941 chartered pela War Shipping Administration, gestores United States Lines, Nova Iorque; 1947 NORTH KING, Soc. de Navegação Luso Panamense, Lda, Lisboa, bandeira Panamiana, que o converteu num paquete de carga e passageiros; 1956 encostava no porto de Lisboa; 01/06/1957 chegava a Osaka para desmantelamento.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index.
(continua)
Rui Amaro

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