UM PILOTO EFECTIVO AUXILIA O SEU NOVO COLEGA NO SEU PRIMEIRO SERVIÇO DE PILOTAGEM NA SAIDA DO VAPOR “MARIA AMÉLIA”
MARIA AMÉLIA /(c) autor desconhecido /.
A 22/07/1931, pelas 19h30, o ex praticante a piloto da barra António Duarte foi dar saída ao vapor Português MARIA AMÉLIA, seu primeiro serviço como piloto provisório. Aquele vapor estava amarrado no pião das barcaças da Sociedade Geral, no lugar do cais do Monchique.
Visto ser um vapor de algum porte para o rio Douro, mas também devido aos ferros se encontrarem enrascados com os do vapor Norueguês DOKKA, que estava amarrado pela popa, além de junto da amarração e em ambas as margens se encontrarem alguns vapores prolongados, o que iria limitar o espaço e dificultar as manobras, o piloto efectivo José Fernandes Amaro Júnior ofereceu-se para ir ajudar o seu novo colega. Felizmente o MARIA AMÉLIA, safos os ferros desandou proa abaixo sem novidade de maior e passou a barra às 20h30, tomando o rumo do porto de Le Havre.
MARIA AMÉLIA – 92,11m/1,765,54TB/10 nós; 05/1913 entregue por Neptun AG, Rostock; como GIRGENTI, a Robert M. Sloman Jnr., Hamburg; 1914 GIRGENTI, refugiou-se no estuário do Tejo devido à eclosão da 1ª guerra mundial; 1916 GIRGENTI, tomado pelo governo Português para fazer face á falta de transportes marítimos, devido à guerra; 1916 GAIA, TME-Transportes Maritimos do Estado, Lisboa; 12/01/1925 MARIA AMÉLIA, Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, Lda., Lisboa; 1959 MARIA AMÉLIA, vendido para desmantelamento aos sucateiros Dantas & Leal, Lda., Lisboa.
Gémeo: LAGOA da CNCA, Ponta Delgada.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index.
O VAPOR NORUEGUÊS “ALA” QUANDO SE PREPARAVA PARA SUSPENDER PERDE O FERRO AO LARGO DA BARRA
Relato textual e verbal do piloto José Fernandes Amaro Júnior respeitante ao seu serviço de entrada do vapor Norueguês ALA.
A 16/07/1931, pelas 12h00, quando a bordo do vapor ALA, afecto à Standard Line (marca "A"), fundeado com o ferro de bombordo, a cerca de uma milha da costa, eu aguardava água para demandar a barra,, foi içado nos mastros do cais dos Marégrafo e do castelo da Foz o grupo de bandeiras indicativo de 14 pés de calado, pelo que mandei suspender o ferro e quando este estava a entrar no escovém, sem que nada o previsse, até porque já estava em cima, desprendeu-se e foi para o fundo.
Em face da situação tratei de anotar as marcas de terra, a fim de mais tarde ou quando da largada do ALA, o meu colega tratasse de o gratear, tentando recuperá-lo.
As marcas referenciadas foram as seguintes: A Leste, farolim de Felgueiras pela torre da igreja da S. João Baptista da Foz; a Norte, mastro da estação da Rádio Naval da Boa Nova pela esquina Oeste do Lazareto de Leça da Palmeira.
Aquando da largada, o meu colega de serviço ao ALA, pelas marcas que eu anotara, e com auxílio da lancha P4, conseguiu recuperar o ferro, seguindo aquele vapor o seu destino, sem mais percalços.
ALA – 66m/933tb; 06/1916 entregue pelo estaleiro Akt. Jarlso Vaerft, Tonsberg, ao armador E.B. Aaby, Cristiania; 1918 ALA, The Shipping Controller, gestores Evlyn Jones & Co., Londres; 1919 ALA, D/S A/S Ala, gestores E. B. Aaby’s Rederi, Cristiania; 1925 ALA, E. B. Aaby, Oslo; 1937 ALA, E. B. Aaby’s Rederi A/S; 13/06/1941 quando reboque, a fim de receber reparações motivadas por avarias infligidas a 17/05/1941 por um raide aéreo de uma esquadrilha da “Luftwaffe”, devido a qualquer bomba alojada avante, que terá feito atrair uma mina magnética, o ALA sofreu uma enorme explosão, que o fez submergir junto da costa de Selsey Bill, já a duas milhas do porto de destino Southampton. (Data-base e historial mais completo será postado em novo episódio do ALA, oportunamente).
Fontes: José Fernandes Amaro Junior; Lloyd’s Regiter of Shipping; The Norwegian Merchant Fleet – WWII.
O VAPOR ITALIANO “EUDORA” SOFRE UM ICIDENTE QUANDO DE SAIDA DEMANDAVA A BARRA
A 19/05/1931, pelas 17h30, o vapor Italiano EUDORA vindo rio abaixo, ao passar no lugar dos Arribadouros, a amarra duma das bóias prendeu-se no seu hélice, acabando por rebentar. De imediato o piloto José Jeremias dos Santos mandou lançar o ferro de estibordo, cuja amarra partiu. Não perdendo tempo mandou largar o ferro de bombordo e então o vapor fez-se ao ferro, virando proa a Leste.
Suspendendo, foi desandar de proa à barra ao lugar do Bico de Sobreiras, auxiliado pelo rebocador MARS 2º, que se cruzava com aquele vapor na ocasião do incidente e às 18h15 passava a barra, contudo para evitar demoras, não foi desembarcar o piloto da barra ao largo do porto de Leixões, levando-o para o porto de Lisboa.
A 03/07/1931, pelas 08h00, a draga de sucção Portuguesa PORTO principiou a dragar as areias junto da restinga do Cabedelo por imposição da Corporação dos Pilotos da Barra, visto aquele local se encontrar bastante assoreado e como tal dificultando a passagem de embarcações de grande calado.
EUDORA – 93m/2.263tb/9,5nós; 24/08/1895 entregue por Blohm Voss, Steinwerder, como KURT WOERMANN `Woermann Linie, Hamburgo; 1919 KURT WOERMANN, entregue ao Governo Francês como reparação de guerra; 1924 LAGOS, Woermann Linie, Hamburgo; 1927 EUDORA, Navigazione Neptunia, Génova; 1937 SIDAMO, Servizio Italo Portoghese SA. Di Navigazione, Génova; 27/03/1943 torpedeado e afundado pelo submarino HMS SAHIB na barra de Milazzo, Sicilia.
PORTO – 60m/825tb. Construída na Alemanha em 1913 sob encomenda da Junta Autónoma das Obras da Cidade/Associação Comercial do Porto, que então e por muitos anos foi a Autoridade Portuária dos Portos do Douro e Leixões, sendo depois substituída pela actual APDL/Porto de Leixões. A finalidade da compra dessa draga foi a de servir, exclusivamente os portos do Douro e Leixões, e que fora adquirida por subscrição da população portuense, negociantes, consignatários de navios, etc. Anos mais tarde, sem mais nem menos, levaram-na do Douro/Leixões para o porto de Lisboa, tendo sido integrada na frota dos SH – Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos, contra a vontade da cidade do Porto, resultando daí que a barra do Douro e o porto de Leixões ficassem ao abandono, sobretudo no caso de dragagens urgentes. Aquela draga, com a extinção daquela Direcção Geral em 1978, foi incorporada na Dragapor – Dragagens de Portugal SA., tomando o nome de Procyon e em 25/07/1981 foi posta a leilão em Viana do Castelo, possivelmente para sucata.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index.
O AVANCE I no porto de Saint Vaast, França, durante a WWII /(C) Cortesia Danish Maritime Museum, Elsinore /.
A 08/02/1930, pelas 09h00, quando o vapor Dinamarquês AVANCE I, piloto Francisco Piedade, que vinha de saída, diante do estaleiro do Ouro, ao desviar-se dos vapores que vinham de entrada, topou num banco de areia, acabando por ficar em seco. De imediato seguiu para o local a lancha P5 levando a reboque a catraia do piloto-mor, com vários pilotos para colaborarem nas operações de desencalhe, infelizmente apesar dos esforços desenvolvidos não foi possível safa-lo, porque entretanto a maré começou a ir de vazante. Nova tentativa foi realizada na maré da noite não sendo bem sucedida. Somente pelas 12h00 do dia 10 é que o AVANCE I se conseguiu safar pelos seus próprios meios, tendo seguido para o lugar do Cavaco, a fim de aguardar melhor maré para sair a barra em segurança.
AVANCE I – 78m / 1300tb/ 9 nós; 12/1912 entregue por Kjobenhavns Flydedok & Skibsvaerf, Copenhaga, como AVANCE a T. Rassmussen’s Sons, Copenhaga; 1927 AVANCE I, J. Henriksen, Risor; bandeira Dinamarquesa; 1949 SADIKZADENAZIM, Sadikzade Nazim, Turquia; 29/04/1954 naufragou em viagem de Zonguldak para Istambul sem vestígios.
INCIDENTE NA MANOBRA DE LARGADA DO VAPOR INGLÊS “ESTRELLANO”
ESTRELLANO / autor desconhecido - Photoship Co. UK /
Relato textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, respeitante ao seu serviço de largada do vapor Inglês ESTRELLANO do rio Douro.
«A 06.05.1931, pelas 16h00, fui dar saída ao vapor inglês ESTRELLANO, 76m/ 1.963tb, que se encontrava amarrado no lugar dos Vanzelleres, por terra do vapor da mesma nacionalidade PROCRIS, cuja manobra de arriar cabos estava a cargo do piloto Manuel Pinto dos Reis, no sentido do meu vapor conseguir passar para o meio do rio, a fim de desandar proa a jusante.
Às 17h20 principiei a largar os cabos de terra e o PROCRIS tratou de virar os ferros e arriar os cabos à proa e à popa, para que o ESTRELLANO pudesse passar. Entretanto, mandei a lancha dos pilotos cambar os cabos da proa e depois, que o PROCRIS se desviou para estibordo, tratei de retirar os ferros, que estavam sob o fundo dele. Quando suspendia os ferros o ESTRELLANO foi colidir, ligeiramente com o PROCRIS, devido ao jeito de águas e força do vento. No entanto, ao mandar largar de terra o cabo de arame da proa, ordenei marcha avante devagar e um pouco de leme a bombordo, logo o vapor ganhou seguimento pelo que mandei parar a máquina e meter leme a meio, contudo naquele instante o varandim da ponte de comando do PROCRIS pegou numa folha de madeira da ponte de comando do meu vapor, partindo-se os balaústres.
Depois do ESTRELLANO ter conseguido livrar-se do PROCRIS, conduzi-o ao meio do rio e de marcha à ré safou-se e suspendeu-se o ancorote dos pilotos à popa e, finalmente desandou-se o vapor com o auxilio do rebocador fluvial LEÃO, tendo então, feito rumo à barra do Douro, onde desembarquei para a lancha de pilotar P4 às 19h20. Chegado à corporação fui dar conhecimento da ocorrência ao piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão, tendo procedimento idêntico sido feito pelo meu colega de serviço ao PROCRIS.
Passados alguns dias, eu e o meu colega Manuel Pinto dos Reis fomos chamados ao capitão do porto do Douro, onde ambos acompanhados pelo piloto-mor, nos apresentamos no dia 11, ao oficial adjunto da capitania, Cdte Ernesto Garcez de Lencastre, que se limitou a registar as nossas declarações sobre o incidente relativo aos dois vapores».
ESTRELLANO – 77m/1.963tb, construído no ano de 1920 pelos estaleiros Hall, Russell & Co., Aberdeen, para os armadores Ellerman & Papayanni, Ltd., Liverpool, que o colocaram na carreira de Liverpool ou Londres para Portugal, que escalava com regularidade, juntamente com os seus parceiros DARINO, PALMELLA, CRESSADO, OPORTO e LISBON, todos eles afundados durante a segunda guerra mundial. Aqueles seis vapores, ainda hoje são recordados nas zonas ribeirinhas do Porto e V. N. de Gaia.
O vapor ESTRELLANO inserido no comboio HG53, foi torpedeado e afundado pelo submarino Alemão U37, quando em viagem do porto de Leixões rumava ao porto de Liverpool, transportando cerca de 2.000 toneladas de carga diversa, incluindo 1.110 toneladas de conservas de peixe, depois de ter ido ao encontro daquele comboio,
Às 04h30 de 09.02.1941, o U37, KapitanLeutnant Asmus Nicolai Clausen, lançou dois torpedos sobre dois vapores do referido comboio, a cerca de 160 milhas a Sudoeste do Cabo de S. Vicente e afundou os vapores COURLAND e ESTRELLANO. Pelas 05h00 um terceiro torpedo foi lançado, contudo falhou o alvo, que era um vapor que seguia na esteira.
5 tripulantes do ESTRELLANO, Captain Fred Bird, pereceram. O comandante, 20 tripulantes e um artilheiro foram resgatados pelo aviso HMS DEPTFORD (L53) e desembarcados em Liverpool. Um tripulante faleceu, a bordo do aviso, devido a ferimentos sofridos, tendo sido sepultado no mar.
PROCRIS – 70m/1.320tb/10 nós; 27/11/1924 entregue pelo estaleiro A. J. Inglis, Ltd., Glasgow, ao armador J. P. Hutchinson, Glasgow; 1931 Moss Hutchinson Lines, Ltd, Glasgow; 1946regressou ao tráfego Glasgow/Portugal; 13/09/1950 vendido a sucateiros de Glasgow para demolição. Navios gémeos: FENDRIS e SARDIS.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index.
Reformado da agência de navegação GARLAND, LAIDLEY / VESSELMAR (Administrativo e Caixeiro de mar) - PORTO.
Autor do livro "A BARRA DA MORTE - A FOZ DO RIO DOURO", cujo lançamento teve lugar a 14/04/2007 no estaleiro norte das obras da nova barra do rio Douro, à Foz do Douro - Porto