O AVANCE I no porto de Saint Vaast, França, durante a WWII /(C) Cortesia Danish Maritime Museum, Elsinore /.
A 08/02/1930, pelas 09h00, quando o vapor Dinamarquês AVANCE I, piloto Francisco Piedade, que vinha de saída, diante do estaleiro do Ouro, ao desviar-se dos vapores que vinham de entrada, topou num banco de areia, acabando por ficar em seco. De imediato seguiu para o local a lancha P5 levando a reboque a catraia do piloto-mor, com vários pilotos para colaborarem nas operações de desencalhe, infelizmente apesar dos esforços desenvolvidos não foi possível safa-lo, porque entretanto a maré começou a ir de vazante. Nova tentativa foi realizada na maré da noite não sendo bem sucedida. Somente pelas 12h00 do dia 10 é que o AVANCE I se conseguiu safar pelos seus próprios meios, tendo seguido para o lugar do Cavaco, a fim de aguardar melhor maré para sair a barra em segurança.
AVANCE I – 78m / 1300tb/ 9 nós; 12/1912 entregue por Kjobenhavns Flydedok & Skibsvaerf, Copenhaga, como AVANCE a T. Rassmussen’s Sons, Copenhaga; 1927 AVANCE I, J. Henriksen, Risor; bandeira Dinamarquesa; 1949 SADIKZADENAZIM, Sadikzade Nazim, Turquia; 29/04/1954 naufragou em viagem de Zonguldak para Istambul sem vestígios.
INCIDENTE NA MANOBRA DE LARGADA DO VAPOR INGLÊS “ESTRELLANO”
ESTRELLANO / autor desconhecido - Photoship Co. UK /
Relato textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, respeitante ao seu serviço de largada do vapor Inglês ESTRELLANO do rio Douro.
«A 06.05.1931, pelas 16h00, fui dar saída ao vapor inglês ESTRELLANO, 76m/ 1.963tb, que se encontrava amarrado no lugar dos Vanzelleres, por terra do vapor da mesma nacionalidade PROCRIS, cuja manobra de arriar cabos estava a cargo do piloto Manuel Pinto dos Reis, no sentido do meu vapor conseguir passar para o meio do rio, a fim de desandar proa a jusante.
Às 17h20 principiei a largar os cabos de terra e o PROCRIS tratou de virar os ferros e arriar os cabos à proa e à popa, para que o ESTRELLANO pudesse passar. Entretanto, mandei a lancha dos pilotos cambar os cabos da proa e depois, que o PROCRIS se desviou para estibordo, tratei de retirar os ferros, que estavam sob o fundo dele. Quando suspendia os ferros o ESTRELLANO foi colidir, ligeiramente com o PROCRIS, devido ao jeito de águas e força do vento. No entanto, ao mandar largar de terra o cabo de arame da proa, ordenei marcha avante devagar e um pouco de leme a bombordo, logo o vapor ganhou seguimento pelo que mandei parar a máquina e meter leme a meio, contudo naquele instante o varandim da ponte de comando do PROCRIS pegou numa folha de madeira da ponte de comando do meu vapor, partindo-se os balaústres.
Depois do ESTRELLANO ter conseguido livrar-se do PROCRIS, conduzi-o ao meio do rio e de marcha à ré safou-se e suspendeu-se o ancorote dos pilotos à popa e, finalmente desandou-se o vapor com o auxilio do rebocador fluvial LEÃO, tendo então, feito rumo à barra do Douro, onde desembarquei para a lancha de pilotar P4 às 19h20. Chegado à corporação fui dar conhecimento da ocorrência ao piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão, tendo procedimento idêntico sido feito pelo meu colega de serviço ao PROCRIS.
Passados alguns dias, eu e o meu colega Manuel Pinto dos Reis fomos chamados ao capitão do porto do Douro, onde ambos acompanhados pelo piloto-mor, nos apresentamos no dia 11, ao oficial adjunto da capitania, Cdte Ernesto Garcez de Lencastre, que se limitou a registar as nossas declarações sobre o incidente relativo aos dois vapores».
ESTRELLANO – 77m/1.963tb, construído no ano de 1920 pelos estaleiros Hall, Russell & Co., Aberdeen, para os armadores Ellerman & Papayanni, Ltd., Liverpool, que o colocaram na carreira de Liverpool ou Londres para Portugal, que escalava com regularidade, juntamente com os seus parceiros DARINO, PALMELLA, CRESSADO, OPORTO e LISBON, todos eles afundados durante a segunda guerra mundial. Aqueles seis vapores, ainda hoje são recordados nas zonas ribeirinhas do Porto e V. N. de Gaia.
O vapor ESTRELLANO inserido no comboio HG53, foi torpedeado e afundado pelo submarino Alemão U37, quando em viagem do porto de Leixões rumava ao porto de Liverpool, transportando cerca de 2.000 toneladas de carga diversa, incluindo 1.110 toneladas de conservas de peixe, depois de ter ido ao encontro daquele comboio,
Às 04h30 de 09.02.1941, o U37, KapitanLeutnant Asmus Nicolai Clausen, lançou dois torpedos sobre dois vapores do referido comboio, a cerca de 160 milhas a Sudoeste do Cabo de S. Vicente e afundou os vapores COURLAND e ESTRELLANO. Pelas 05h00 um terceiro torpedo foi lançado, contudo falhou o alvo, que era um vapor que seguia na esteira.
5 tripulantes do ESTRELLANO, Captain Fred Bird, pereceram. O comandante, 20 tripulantes e um artilheiro foram resgatados pelo aviso HMS DEPTFORD (L53) e desembarcados em Liverpool. Um tripulante faleceu, a bordo do aviso, devido a ferimentos sofridos, tendo sido sepultado no mar.
PROCRIS – 70m/1.320tb/10 nós; 27/11/1924 entregue pelo estaleiro A. J. Inglis, Ltd., Glasgow, ao armador J. P. Hutchinson, Glasgow; 1931 Moss Hutchinson Lines, Ltd, Glasgow; 1946regressou ao tráfego Glasgow/Portugal; 13/09/1950 vendido a sucateiros de Glasgow para demolição. Navios gémeos: FENDRIS e SARDIS.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index.
OS DOIS PRIMEIROS VAPORES DE BANDEIRA REPUBLICANA ESPANHOLA NO RIO DOURO E NO PORTO DE LEIXÕES
A 05/05/1931, pelas 08h30, demandou a barra do Douro o vapor TORRAS Y BAGES, pertencente à Compañia Transmediterranea, de Barcelona, arvorando a bandeira republicana Espanhola. Aquele vapor, conduzido pelo piloto João Pinto de Carvalho, foi amarrar no lugar dos Vanzelleres, sendo seus agentes a firma Leonard H. Wright & Cia Lda e no dia seguinte entrou no porto de Leixões o vapor CABO LA PLATA, propriedade da Ybarra & Cia, de Cádis, arvorando também o pavilhão republicano de Espanha, sendo conduzido pelo piloto Manuel Pinto da Costa, que o ancorou ao Sul a dois ferros. Aquele vapor veio consignado ao agente Kendall, Pinto Basto & Cia Lda e também nesse mesmo dia, pelas 09h00, demandou a barra, pela primeira vez, o vapor Alemão CEUTA da companhia OPDR, Hamburgo, gémeo do RABAT, de cujo porto procedia, sendo seu agente na cidade do Porto a firma Burmester & Cia., Lda. O piloto Delfim Duarte conduziu a sua entrada e foi dar fundo no lugar do Quadro da Alfandega.
TORRAS Y BAGES – 74,95m/1.344tb/9 nós; 01/1902 entregue por Clyde Shipbuilding Co., Ltd, Port Glasgow, como VELAZQUEZ à Naviera La Bética (gestores Mac Andrews Co.), Sevilla; 1917 VELAZQUEZ, Compañia Maritima de Barcelona, Barcelona; 1917 TORRAS Y BAGES, Compañia Trasmediterranea, Barcelona; Barcelona; 1936 TORRAS Y BAGES, foi rebocado pelo vapor CIUDADELA desde Mahon a Barcelona para ser reparado e colocado em serviço, por conta do governo republicano. Estando próximo a ocupação de Barcelona pelas tropas Nacionalistas, foi levado para Marselha, de onde regressou a Barcelona rebocado pelo vapor CASTILLO TORDESILLAS, uma vez terminado o conflito fratricida Espanhol; 1952 TORRAS Y BAGES, Islena Marítima,??; 1958 TORRAS Y BAGES, Naviera Morey SA., Barcelona; 1966 desmantelado para sucata algures em Espanha.
CABO LA PLATA – 85m/2002tb/ 9nós; 11/1908 entregue por Greenock & Grangemouth Dockyard Co., Greenock, à Ybarra Y Cia, Cádis; 1937 CABO LA PLATA, requisitado pelo governo nacionalista Espanhol, que lhe alterou o nome para PLAUSTRA; 1939 terminada a guerra civil de Espanha foi devolvido à Ybarra Y Cia. ; 06/10/1952 Perdeu-se por encalhe devido ao nevoeiro no Cabo Home, à saída da ria de Vigo.
CEUTA – Detalhes serão postados num próximo episódio mais desenvolvido.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Miramar Ship Index; La Compañia Tramediterranea a través de sus buques; Andimar.Es.
A FRAGATA MERCANTIL “MERCURIO” SOFRE UM ACIDENTE E PERDE-SE Á SAÍDA DA BARRA DO DOURO
O rebocador MARS 2º na bacia do porto de Leixões, arvorando a bandeira da Nordeutscher Lloyd, Bremen, prova que está a prestar assistência a um paquete daquele importante armador.
A 04/05/1931, pelas 19h00, saía a barra do Douro a fragata MERCÚRIO conduzida pelo rebocador MARS 2º, e quando alcançava o lugar da Forcada, meio do cais Velho, foi descaindo para cima da penedia da Ponta do Dente devido ao vento Sul forte, que se fazia sentir, pelo que o cabo de reboque se atravessou na bóia da barra e a fragata começou a embater nas pedras, partindo-se aquele cabo. Entretanto, o MARS 2º apitava, desesperadamente pedindo auxílio e a tripulação da fragata largou o ferro, tentando evitar o pior. Não tendo sido bem sucedida devido a ter penetrado pelo caneiro da praia das Pastoras, onde se deteve encalhada.
De imediato acorreram ao local os pilotos da barra com o seu material flutuante e por terra compareceu o pessoal da Estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro com o respectivo material de salvamento, que não chegou a ser necessário, uma vez que os tripulantes se serviram do bote de bordo e desembarcaram no areal da daquela praia.
MARS 2º - 31,88m/114tb/10nós/ casco de aço; 09/1909 entregue por Scott & Sons (Bowling), Glasgow, à The Booth Steamship Co., Ltd. (Booth Line), Liverpool; para assistência aos seus navios no porto de Leixões, vindo tomar o lugar do rebocador MARS, que se perdeu na grande cheia de 1909 do rio Douro; 1909 MARS 2º, Empresa de Transportes Fluviais e Marítimos, Lda., gestor Garland, Laidley & Co., Ltd., Porto; 1942 NAUTICUS, Companhia Colonial de Navegação, Lisboa, operando no tráfego fluvial e costeiro, na rebocagem dos batelões da companhia. Subsequente história não encontrada.
MERCURIO – armador A. J. Gonçalves de Moraes & Filhos, Porto, restantes detalhes não encontrados.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior; Lloyd’s Register of Shipping; imagem colecção de F. Cabral.
O REBOCADOR “JUPITER” SAI A BARRA DO DOURO PELA ÚLTIMA VEZ
A 25/04/1931, pelas 10h55, conduzido pelo piloto João António da Fonseca, saiu a barra do Douro o rebocador JUPITER, arvorando a bandeira tricolor de França, com destino ao porto Senegalês de Dakar para onde foi vendido.
Aquele rebocador era o antigo JUPITER que prestou variados e bons serviços, sobretudo na costa e portos do Norte, em especial no rio Douro e porto de Leixões, capitaneado pelo mestre Francisco António Rosa, “O Salvaterra”, que timonando esse mesmo rebocador, envidou várias e arriscadas tentativas de aproximação ao vapor Alemão DEISTER, naufragado no cabeço da barra do Douro a 03/02/1929, a fim de resgatar os 24 tripulantes e o piloto da barra Jacinto José Pinto, que infelizmente todos eles acabaram por perder a vida no meio de enormes vagalhões e sob temporal desfeito, após cerca de seis horas de luta titânica contra uma morte certa.
O JUPITER juntamente com o MARS 2º, do mesmo armador, prestavam assistência aos vapores consignados à agência marítima Garland, Laidley & Co., Ltd., nomeadamente aos paquetes da Booth Line e da Lamport & Holt Line, de Liverpool, e ainda aos de outras agências.
JUPITER – 30m/116tb/450hp; 1915 entregue por Constants Kievits & C0.,Ltd., Dordrecht, como FOREMOST a interesses Ingleses; 19— JUPITER, Empresa de Transportes Fluviais e Maritimos, Lda., gestores Garland, Laidley & Co., Ltd, Porto; 04/1931 JUPITER, Sté des Messageries Africaines du Senegal. Dakar: 1945 rasto ainda não encontrado.
Fonte: Joaé Fernandes Amaro Júnior, Lloyd’s Register of Shipping; Foto Colecção F. Cabral
Reformado da agência de navegação GARLAND, LAIDLEY / VESSELMAR (Administrativo e Caixeiro de mar) - PORTO.
Autor do livro "A BARRA DA MORTE - A FOZ DO RIO DOURO", cujo lançamento teve lugar a 14/04/2007 no estaleiro norte das obras da nova barra do rio Douro, à Foz do Douro - Porto