A LANCHA DE PILOTOS “P4” RESGATA DOIS PESCADORES DE UMA PEQUENA EMBARCAÇÃO NAUFRAGADA A SUL DA BARRA DO DOURO
A 25/02/1931, pelas 08h00, ao largo das pedras do Cão, a Sul do Cabedelo da barra do Douro, povoação de Lavadores, devido à forte rebentação, voltou-se uma pequena embarcação de pesca do centro piscatória da Afurada, tendo os seus dois ocupantes quase perdendo a vida. Valeu-lhes a pronta acção da lancha dos pilotos P4, que os salvou “in extremis” de uma morte certa, conduzindo-os de seguida para a Cantareira, onde foram agasalhados na corporação de pilotos, sendo-lhes fornecido roupas secas, tendo de seguida sido transportados ao Hospital da Misericórdia do Porto (Hospital de Santo António), na auto-maca da Cruz Vermelha. A embarcação naufragada foi encontrada mais tarde varada no areal.
O VAPOR PORTUGUÊS “SAN MIGUEL” NO RIO DOURO NA SUA VIAGEM INAUGURAL
O SAN MIGUEL entranso na doca nº 2 do porto de Leixões em 17/10/1965 - Rui Amaro
A 24/02/1931, pelas 17h30, entrou a barra do Douro, em 18 pés de calado de água, o moderno vapor Português SAN MIGUEL, 92,65m/2.177tb/11-13 nós, que efectuava a sua viagem inaugural, tendo sido amarrado no lugar de Oeste da Cábrea. A entrada foi orientada pelo piloto Eurico Pereira Franco e no primeiro dia de Abril saiu a barra sob a direcção do piloto José Jeremias dos Santos com destino aos Açores com escala pelo porto de Lisboa.
Aquela esplêndida unidade mercante foi entregue em 02/1931 pelos estaleiros Swan, Hunter & Wigham Richardson, Sunderland, à Companhia de Navegação Carregadores Açoreanos, Ponta Delgada, representada na cidade do Porto pela firma David, José de Pinho & Fos., Lda, que o destinou à linha dos Açores/Norte da Europa/Continente/Açores. No dealbar da segunda guerra mundial passou a operar na nova linha da costa Leste do EUA, nomeadamente para os portos de Nova Iorque e Filadélfia, escalando o Funchal e os principais portos Açoreanos, e após o fim da guerra e a entrada de quatro novas unidades para o seu armador e para aquela linha, que foram o RIBEIRA GRANDE, MONTE BRASIL, HORTA e VILA DO PORTO, retomou o serviço do Norte da Europa, terminando os seus dias no tráfego Continente/Madeira/Açores. Em Junho de 1968 foi vendido a sucateiros Espanhóis do porto de Ferrol.
Fonres: José Fernandes Amaro Júnior e Carregadores Açoreanos e a sua frota (A.A. de Moraes).
O VAPOR NORUEGUÊS “BESSEGG” SOFRE POR DUAS VEZES AVARIA NA MÁQUINA QUANDO SE PREPARAVA PARA RUMAR Á BARRA
Narrativa textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, relacionada com o seu serviço de largada do rio Douro do vapor Norueguês BESSEGG.
«A 14.02.1931, pelas 13h00, embarquei numa das catraias das amarrações a fim de ir dar saída ao vapor Norueguês BESSEGG, o qual após ter descarregado um carregamento de bacalhau da Noruega no lugar do cais do Terreiro, estava pronto para largar em lastro.
Chegado a bordo, fiz ver ao capitão, que ia chamar um rebocador para auxiliar a manobra de desandar o vapor. O capitão disse-me, que não havia necessidade disso. No entanto, depois de lhe ter feito ver das consequências, que daí poderiam advir, devido a vários vapores estarem amarrados dois a dois do lado da margem de Gaia, o que iria condicionar aquela manobra, o capitão acabou por concordar com a minha intenção.
O pequeno rebocador fluvial MARIAZINHA pegou à proa e então, iniciei a manobra largando os cabos de terra, virando os ferros da proa e logo de seguida o rebocador começou a desandar o vapor, ao mesmo tempo que a catraia suspendia e recolhia o ferro dos pilotos à popa. Após ter posicionado o vapor de proa a jusante e ainda com o rebocador à proa, mandei dar meia força avante na máquina e seguia rumo à barra, quando o capitão me diz, que largasse o ferro, porque a máquina estava com avaria e já não queria sair. Em face disso largou-se o ferro de estibordo e fiz sinal ao rebocador para rodar o vapor de proa a montante, porque íamos regressar ao mesmo ancoradouro e assim se procedeu, ficando o vapor amarrado de maneira a sair no dia seguinte. Entretanto subiu a bordo o empregado da agência do vapor, a firma Jervell & Knudsen Lda., a quem fiz ver para quando marcasse a hora da saída do vapor, o não fizesse através da estação telegráfica da Associação Comercial mas directamente por telefone para estação de pilotos da Foz, recomendando ao piloto de serviço à estação para me avisar.
Regressado à Cantareira, dei conhecimento ao piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão do sucedido, pelo que ele me disse para continuar afecto à saída do BESSEGG. No dia seguinte, domingo gordo, logo de manhã cedo fui para a corporação a fim de aguardar o telefonema. No entanto, o piloto José Fernandes Tato, de serviço à estação recebeu o aviso do empregado da agência e comunicou ao piloto-mor e este foi tirar parecer com o cabo-piloto António da Silva Pereira e com o piloto mais antigo Manuel de Oliveira Alegre, indagando se deveria mandar o piloto que iniciara o serviço de saída na véspera ou mandar o piloto Júlio Pinto de Carvalho. Ambos foram de opinião, que deveria ser o piloto Júlio Pinto de Carvalho, que estava ao primeiro da esquadra de serviços de dentro. Quando aquele meu colega se preparava para embarcar na catraia, que o levaria ao vapor e auxiliar as manobras de largada, foi recebida contra-ordem do agente a cancelar a saída, devido a nova avaria, ficando marcada para o dia seguinte, terça-feira de Carnaval e, efectivamente nesse dia o BESSEGG passou a barra do Douro, conduzido pelo piloto Mário Francisco da Madalena acompanhado pelo piloto praticante António Duarte».
Fontes e imagem:: José Fernandes Amaro Júnior e Lillesand Monstringskrets/ Sjohistorie.No
OS VAPORES FRANCESES “PENTHIEVRE” E “PENERF” PELA PRIMEIRA VEZ NO RIO DOURO
A 04/02/1931, pelas 13h40, demandou a barra do Douro, pela primeira vez, o vapor Francês PENTHIEVRE consignado aos agentes Orey Antunes & Cia Lda, tendo sido conduzido pelo piloto José Jeremias dos Santos e foi amarrar no lugar dos Vanzelleres e no dia 5 saiu a barra dirigido pelo piloto Júlio Pinto de Carvalho acompanhado pelo praticante António Duarte. Aquele vapor servia o tráfego entre o porto de Nantes e os portos de Marrocos, passando a escalar os portos do Douro/Leixões, Lisboa, regularmente.
O PENTHIEVRE, 88m/2.382tb, foi construído em 1922 pelos Anciens Chantiers Dubigeon, Le Havre, por encomenda do armador Compagnie Nantaise de Navigation à Vapeur, Nantes, tendo sido vendido em 1937 à Compagnie Generale Transatlantique, Paris, conservando o mesmo nome. Em 02/03/1943 foi atacado e afundado pelas baterias de costa Britânicas, quando no estreito de Dover, entre Cap Gris Nez e Calais, navegava ao serviço do governo Francês de Vichy.
A 13/02/1931, pelas 10h45, entrou a barra do Douro, também pela primeira vez, o vapor Francês PENERF do mesmo armador e afecto ao mesmo tráfego do vapor PENTHIEVRE, tendo sido pilotado pelo piloto Pedro Reis da Luz, que o amarrou no lugar dos Vanzelleres. Deixou a barra do Douro a 14, conduzido pelo piloto Júlio Pinto de Carvalho.
O PENERF, 85m/2.151tb, foi construído pelo estaleiro Britânico Napier & Miller, Clyde, por encomenda do armador Compagnie Nantaise de Navigation à Vapeur, Nantes, tendo sido vendido à Compagnie Generale Transatlantique, Paris, conservando o mesmo nome. Em 14.04.1943, quando navegava a cinco milhas a Leste de Cap d’Antibes, ao serviço governo Francês de Vichy, foi torpedeado e afundado por um submarino aliado. Do afundamento pereceram vinte vidas.
Fontes: José Fernandes Amaro Júnior e Miramar Ship Index.
ENTRADA NEGADA AO VAPOR ALEMÃO “ARION” DEVIDO AO SEU CALADO DE ÁGUA E ALGUMA ONDULAÇÃO NA BARRA
O vapor Alemão ARION no porto de Bremen - (c) 100 Jahare DG Neptun, Bremen / colecção F. Cabral /.
A 29/01/1931, pelas 08h00, o piloto José Fernandes Amaro Júnior e o praticante António Duarte, frente ao lugar de Carreiros, saltaram da lancha de pilotar para bordo do vapor Alemão ARION, pertencente à companhia Neptun Dampfs. Ges., Bremen. Aquele vapor procedente de Bremen e Antuérpia, calava 17,9 pés e aguardava entrada na barra do Douro. Como aquele calado se tornasse duvidoso, devido à ondulação, que dificultava uma observação mais rigorosa, o cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles ordenou ao piloto para ir à bacia do porto de Leixões ratificar o calado de água. Confirmado 17,6 pés à proa e 17,9 à popa pelo cabo-piloto Paulino Pereira da Silva Soares, a bordo da lancha P3, o ARION saiu do porto de Leixões, indo dar fundo junto da barra à espera da preia-mar e do sinal de entrada, não deixando de assinalar para terra, através de toques da sua sirene, o seu calado de água máximo.
O piloto José Fernandes Amaro Júnior constatando, que a hora da maré já tinha passado e com os binóculos reparou no corso da vazante já perto da Meia Laranja, além de vislumbrar o piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão a ausentar-se de junto da escala de marés do cais do Relógio a caminho da Corporação. Fácil foi concordar da impossibilidade de entrada e como tal deu conhecimento disso ao comandante e ao seu colega. Em face da situação suspendeu o ferro e foi fundear mais ao largo em franquia, marca do Norte ou seja farol da Boa Nova por terra do farol do Molhe Sul e a Leste, marca nova das Três Orelhas por Sul da marca do Anjo e assim permaneceram os dois pilotos a bordo até o vapor ter demandado a barra do Douro passados três dias, ou seja a 31 de Janeiro, pelas 12h40, indo amarrar no lugar do quadro da Alfândega, prolongado com outro vapor.
ARION, IMO 5518221, 90m/2.297tb; 09/1927 entregue pelo estaleiro Deschimag Werk AG Weser, Bremen, á DG Neptun, Bremen, que o colocou no serviço Ibérico; 1929 reconstruído; 1940 ao serviço da “Kriegsmarine”; 1940 entregue ao seu armador; 11/05/1945 bombardeado pela Força Aérea Aliada no rio Elba, sofrendo graves avarias; 1947 parcialmente recuperado; 1950 reparado e reconstruído como “combi ship” (motor e máquina a vapor);, tendo sido alongado para 96,7m/3.156tb, apresentando um novo perfil, retomando o serviço de Portugal e Espanha; 1957 motor removido; 1960 KARL RAGNAR, Lovisa Rederi (gestores A/B R. Nordstrom OY), Lovisa, Finlândia; 03/07/1961 chegava a Hamburgo para desmantelamento; Gémeo APOLLO.
Fontes: The Ships list, 100 Jahre DG Neptun - Bremen, Miramar Ship Index.
Reformado da agência de navegação GARLAND, LAIDLEY / VESSELMAR (Administrativo e Caixeiro de mar) - PORTO.
Autor do livro "A BARRA DA MORTE - A FOZ DO RIO DOURO", cujo lançamento teve lugar a 14/04/2007 no estaleiro norte das obras da nova barra do rio Douro, à Foz do Douro - Porto