quinta-feira, 13 de agosto de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 10



O HORROROSO NAUFRÁGIO DO VAPOR ALEMÃO DEISTER OCORRIDO NA BARRA DO DOURO A 03.02.1929

Jornal “O COMÉRCIO DO PORTO” de 05.02.1929
À esquerda vê-se o DEISTER, após se safar da restinga e ainda em dificuldades diante da pedra da Forcada, manobrando para sair a barra. À direita já encalhado e a afundar-se, acabando por se deter algum tempo semi-submerso, conquanto no castelo da popa encontram-se vinte e um náufragos, mais outros três no vau do mastro e o oficial sobrecarga abrigado na casa de navegação, que é engolfada por enormes vagalhões, tentando todos resistir a uma morte certa
.
A 04.11.1928, pelas 08h00, entrava a barra do Douro, com alguma corrente de água de cima, o vapor Alemão DEISTER na sua primeira viagem ao rio Douro. O piloto da barra José Fernandes Amaro Júnior, 29 anos de idade e dois de serviço activo, que dirigia a manobra, seguira de véspera para Leça da Palmeira, a fim de passar a noite a bordo daquele vapor, que procedente de Bremen e Anvers com carga diversa, aguardava na bacia do porto de Leixões melhores condições de mar e maré para demandar a barra do Douro.
Ao alvor, aquele piloto deu ordem para suspender os dois ferros e saindo os molhes, navegou junto à costa até dar fundo diante da barra, onde permaneceu ancorado a aguardar, que o piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão, depois de se inteirar das condições da barra e da hora exacta para uma navegação segura, lhe autorizasse o acesso ao rio Douro. Içado o grupo de bandeiras indicativo de 16 pés de calado de água, nos mastros do cais do Marégrafo e do castelo da Foz, mandou virar o ferro e de marcha meia força avante, foi fazer o enfiamento da marca das Três Orelhas ou do Mato pela marca do Telégrafo da Cantareira. Passou a área critica da barra sem grandes percalços, uma ou outra pequena guinada originada pelos sempre imprevistos estoques de água ou pelas usuais ronhentas, que contrariava metendo leme ao bordo oposto e mais força na máquina para regressar ao meio do rio. O DEISTER parecia-lhe ser uma embarcação de bom leme e andamento, visto não lhe estar a causar grandes preocupações na sua navegação. Passadas as bóias da Cantareira/Arribadouros e depois de pegar a reboque a catraia das amarrações, seguiu para montante até alcançar o lugar do cais do Monchique, onde deu fundo a dois ferros, cabos estabelecidos para terra e ancorote dos pilotos pela popa espiado ao lançante para sudoeste.

Desenho visionado pelo autor do texto
O DEISTER, ostentando as cores do seu armador Rabien & Stadtlander G.m.b.H, Bremen.

O DEISTER, 80m/1.760tb, que vinha consignado aos agentes W.Stuve & Cia e fora construído em 1921 pelo estaleiro Howaldstwerke, Kiel, sob o nome de FRANZISKA para o armador Carl Wohlenberg, Hamburgo, tendo sido adquirido em 1928 pelo armador Rabien & Stadtlander G.m.b.H., Bremen, passando então a andar fretado à companhia Neptun Dampfs. Ges., também de Bremen, até se perder por naufrágio a 03.02.1929, quando efectuava a sua terceira viagem ao rio Douro. À mesma companhia fretadora viriam a andar fretados e mais tarde adquiridos os navios-motor gémeos DIAMANT, BRILLANT e ELEKTRA, que escalavam os portos portugueses no pós-guerra. Entre os anos de 1954 e 1957 o DIAMANT esteve sob gestão do armador do DEISTER.

Foto de Francisco Cabral
O BRILLANT (à esquerda) e o seu gémeo DIAMANT (à direita) cruzam de saída a barra do Douro no ano de 1957, precisamente junto da pedra da Forcada, local onde o DEISTER iniciou o caminho para o seu fim e dos seus desventurados náufragos.

Nesse dia trágico, um domingo, alguns minutos depois das 08h00, o DEISTER, já dentro da barra, um pouco adiante do lugar da Ponta do Dente, desgovernou, perigosamente a bombordo e o piloto da barra mandou largar o ferro de estibordo e máquina à ré, a fim de evitar a pedra da Forcada. Logo a seguir, obedecendo às manobras, foi ao meio do rio mas perdeu o referido ferro, por se ter desmanilhado a amarra. Entretanto, quando se preparava para seguir rio acima voltou a guinar a bombordo, pelo que se viu obrigado a largar o único ferro disponível ou seja o de bombordo, a fim de evitar ir sobre o enrocamento do cais Velho, acabando por perder também esse ferro. No entanto, quando tudo parecia ir correr de feição foi de guinada a sueste e sem ferros para o evitar, acabou por encalhar na restinga do Cabedelo, ficando envolvido na forte ondulação, que muita das vezes se faz sentir naquele local.
O rebocador BURNAY 2º, que pairava perto das bóia dos Arribadouros, acorreu pressuroso mas não conseguiu estabelecer ligação com o vapor sinistrado, devido à forte corrente do rio e à ondulação na restinga do Cabedelo, que o fazia perigar e causou, que alguns elementos da sua equipagem ficassem feridos. Mais feliz, apareceu às 08h30 o rebocador JUPITER vindo de Leixões que, beneficiando de alguns lisos de mar, conseguiu passar o cabo de reboque à popa do vapor sinistrado, o qual pouco depois rebentou. Uma segunda amarreta foi passada e também acabou por rebentar. Uma terceira tentativa foi mais afortunada, tendo o rebocador puxado pelo DEISTER, conseguindo fazê-lo mover-se um pouco para oeste, todavia logo a seguir o JUPITER, devido ao jeito das águas de cima e da ondulação, foi tocado pela alheta de bombordo e desgovernou, guinando para Sul. Chegou a bater por duas vezes com a quilha sobre a restinga, quebrando-se os vidros das quatro vigias à proa, pelo que o mestre Francisco António Rosa, o Salvaterra, julgando ter sofrido grande avaria no fundo provocada pelas pancadas e vendo o risco iminente de naufragar com os seus homens, sem beneficio para ninguém, mandou cortar a amarreta sem perda de tempo e de marcha toda força à ré, a fim de sair do perigo em que se encontrava, seguiu assim para fora da barra, vencendo a ondulação, que no canal de navegação ainda não era demasiado perigosa, ao contrário da restinga e do cabeço da barra.
Com a rebentação do mar, que se fazia sentir, quando o JUPITER bateu no fundo, agravado com a água que entrou em grande quantidade, a casa da máquina, caldeira, alojamentos à proa e à popa ficaram inundados. A água chegou a atingir o nível de 2,5 pés, pelo que o mestre decidiu voltar a Leixões, a fim de limitar as avarias e esgotar a água.

Cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles

Nessa altura, o piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão e o cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles, deixando de dispor da acção dos dois rebocadores, mandaram lançar um foguetão, que conseguiu alcançar o vapor e então foi estabelecido um cabo de arame, que foi amarrado a um peoriz do cais Velho. De bordo, começaram a retesar esse arame e a breve trecho conseguia-se desencalhar o vapor, que ganhando jeito às águas de cima ficou atravessado ao rio, de proa ao Norte e dando leves indícios de se encontrar arrombado avante, talvez por ter batido na penedia submersa da Forcada ou no enrocamento do cais Velho, sem que ninguém tivesse dado por isso.
Sem os dois ferros e talvez a bordo, devido à situação e nervosismo gerado, não se tivessem apercebido da entrada de água nos porões de vante ou se ignorasse por falta de sondagem a dimensão dos rombos, o piloto da barra compelido, para se evitar o bloqueamento da barra, acabou por se fazer ao largo, com a maresia e o tempo a deteriorar-se, na tentativa vã de alcançar o porto de Leixões e onde, caso estivesse arrombado, seria encalhado em areal apropriado ou em qualquer baixio da bacia daquele porto, procedimento normal para casos semelhantes. No entanto, houveram entendidos, que não admitiam a ida do vapor para o mar, devido ao facto de se encontrar, eventualmente arrombado e sobretudo privado de ferros para uma eventual necessidade de ancorar numa situação de emergência mas o piloto-mor, certamente após ter conferenciado com os seus subordinados presentes no cais Velho e como profissional responsável pelos serviços de pilotagem apurando que havia condições para o DEISTER rumar ao porto de Leixões, teve de decidir na hora, pelo que os populares jamais lhe deveriam ter imputado culpas pela tragédia.



Após se safar da restinga do Cabedelo, e sem ferros, o DEISTER manobra para sair a barra, a fim de regressar ao porto de Leixões, evitando bloquear o canal de navegação, contudo rumando para o seu fim e para morte certa dos seus malogrados tripulantes e do desditoso piloto da barra.

Entretanto, o DEISTER saia a barra suportando algumas fortes voltas de mar, que o não faziam perigar na sua marcha mas talvez lhe tenham danificado as escotilhas dos porões de vante por onde começou também a entrar água. Todavia, um pouco a Sul da pedra do Gilreu, sem ferros e na ausência de qualquer embarcação de apoio por perto, começou por seguir à deriva a arriar-se de proa, leme e hélice fora de água, apitando lugubremente por socorro, tendo acabado por se deter encalhado no topo norte do cabeço de areia da barra, distanciado cerca de trezentos a quatrocentos metros para oés-sudoeste do farolim de Felgueiras, local de forte ondulação e difícil acesso.
Curiosamente, quando manhã cedo o DEISTER, vindo do porto de Leixões, demandara a barra, a ondulação era fraca, embora por vezes ameaçasse deteriorar-se devido à previsão de tempestade eminente mas nada fazendo prever tamanha tragédia, embora cerca das 07h40 fossem sentidas rajadas de vento de oés-noroeste da ordem dos 90 km/h e às 11h15 registara-se a rajada mais violenta de 128 km/h de noroeste. Durante a tarde repetiram-se as fortes rajadas de carácter ciclónico. O mau tempo só começou a amainar por volta das 20h00. O rebocador JUPITER, vindo do porto de Leixões para safar do Cabedelo o vapor sinistrado, entrou e saiu a barra com alguma dificuldade mas sem qualquer percalço. A maresia e a ventania começaram a piorar, drasticamente no preciso momento em que aquele vapor manobrando de proa ao mar, pelos seus próprios meios, retrocedia para o porto de Leixões, abandonando o rio Douro, se bem que quando o inditoso piloto da barra constatou que não alcançaria bom porto, tudo levou a crer, enquanto teve hélice e leme, que tentou manobrar de maneira a encalhar o DEISTER a Norte do molhe de Felgueiras, mais propriamente na penedia da praia do Ourigo, local onde haveria mais hipóteses de resgate da tripulação. Só que já era demasiado tarde.


Colecção de Francisco Cabral / Foto de autor desconhecido
O rebocador JUPITER da Empresa de Transportes Fluviais e Marítimos (Garland, Laidley & Co. Ltd - Porto), que capitaneado pelo mestre Francisco António Rosa, o Salvaterra, ingloriamente realizou várias tentativas arriscadas para salvar os náufragos do DEISTER.

Esse acidente redundou numa enorme desgraça, na qual pereceram todos os seus 24 tripulantes e o piloto da barra Jacinto José Pinto, 33 anos de idade, profissional muito competente. Desventurados, que se debateram, estoicamente cerca de seis horas contra os gigantescos andaços de mar. Vinte e um agarrados ao varandim do castelo da popa, um outro apoiando-se na casa de navegação, então já, parcialmente despedaçada e três refugiados no vau do mastro de ré, até desapareceram naquele mar revolto, apesar de se ter feito todas as tentativas possíveis e inimagináveis para o seu salvamento, por terra e mar sob chuva e ventos violentos contrários aos foguetões sem conta, que eram lançados, continuamente, a partir do molhe de Felgueiras ou do areal do Cabedelo, contudo sem atingirem o alvo, por várias corporações de bombeiros sem olharem ao cansaço e ao perigo, as quais eram os Municipais do Porto, Voluntários do Porto, Portuenses, Invicta (corporação há muitos anos extinta, cuja sede se situava na rua Cândido dos Reis) e Matosinhos e Leça, coadjuvados por alguns pilotos da barra e seu pessoal, entre os quais o cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles, perito no lançamento de foguetões e responsável pela estação de Socorros a Náufragos da Foz do Douro. Cerca das 15h15 o DEISTER estava completamente desfeito, deixando então de se vislumbrar qualquer das suas mais pequenas estruturas.
Como acima se relata, entre os náufragos havia o piloto da barra, cuja esposa com os quatro filhitos ao colo ou muito agarrados às suas saias, diante da praia das Pastoras, certamente sem compreenderem o que se passava, não tirava os olhos do DEISTER. Gritava, chorava, implorava: ´´É ele, é ele! Jacinto! Jacinto! O mar, raivosamente não largava as suas presas…
Um tripulante, que agarrado ao varandim da casa de navegação, enfrentando catadupas de vagalhões impiedosos, viu os seus companheiros de infortúnio serem levados pela borda fora, tendo tido ele, algum tempo depois, o mesmo fatídico destino, sendo arrebatado pela maresia, que espatifou por completo a ponte de comando como se de uma caixita de sabão se tratasse, sem que antes não deixasse de erguer as mãos ao céu e de se virar para a bandeira Alemã fazendo a continência. Esse tripulante, que usava uma prótese de borracha por ter perdido uma perna durante a primeira guerra mundial, como oficial da Marinha Imperial Alemã, era o oficial sobrecarga Walter Elster, que representava a companhia fretadora e anteriormente ocupara o lugar de imediato do vapor AJAX, usual frequentador do porto comercial do Douro. Esse oficial falava português fluente e era figura muito conhecida na cidade do Porto, onde possuía muitos amigos. De terra, através de binóculos, vislumbrava-se no DEISTER, saltitando e uivando, aflitivamente um cão enorme e também um canário. Por incrível que pareça a bandeira Alemã içada no respectivo mastro, já muito perto do fim da tragédia, apareceu a meia haste.
Logo que o JUPITER entrou em Leixões procedeu-se ao seu esgotamento e entretanto o mestre ficou muito surpreso por saber, que o DEISTER, já fora da barra estava a naufragar, pois julgava-o livre de perigo e então dirigiu-se sem demoras para o local do naufrágio e por ordem do capitão do porto levou a reboque o salva-vidas LEIXOES. De Leixões saíram também o rebocador LUSITANIA e a traineira S. SEBASTIÃO, a qual levava um outro salva-vidas a reboque.


O salva-vidas LEIXÕES e a sua companha, vendo-se à direita o patrão José Rabumba, o Aveiro.(colecção R. Delgado).

Chegados às imediações do horroroso sinistro, com o mau tempo e o mar a crescer assustadoramente aliado a fortes bátegas de água, via-se, sobre os andaços de mar, que a maior parte dos náufragos, incluindo o piloto da barra, se encontrava no tombadilho do castelo da popa. Então, o JUPITER foi-se aproximando quanto pode, largando o cabo de reboque do salva-vidas, cujo patrão era José Rabumba, o Aveiro. Nesse momento caiu um forte pampeiro, vindo de noroeste. Foi então, que uma vaga descomunal – a vaga da morte – varreu o vapor de lés a lés, levando aqueles desgraçados homens, que agora se debatiam com a maresia enfurecida, tentando alcançar a tábua de salvação, que mais perto distinguiam, que eram as embarcações que por fora da rebentação os tentavam socorrer. Os infelizes aos poucos foram desaparecendo, viam-se apenas dois deles agarrados a uns troços de madeira. Dado que o salva-vidas não tinha hipótese de se aproximar, o mestre do JUPITER mandou de imediato preparar as bóias de salvação e sujeitando-se ao perigo aproximou-se de ré o mais que pode dos dois náufragos. Depois – já a pouca distancia – acontece o imprevisto, uma fortíssima vaga fez voltar o salva-vidas LEIXÕES, que estava a uns cem metros pela proa, pelo que teve de socorrer os cerca de 15 homens da sua companha. Por sua vez o JUPITER, que das poucas embarcações de resgate, que se encontravam na área, embora não fosse a ideal, era a que melhor se adequava à aproximação, ficou envolto na maresia e mais uma vez a casa da máquina e da caldeira foram alagadas.

José Rabumba - O Aveiro

O JUPITER chegado junto do salva-vidas LEIXÕES, que entretanto retomara a sua posição normal, foi-lhe passado o cabo de reboque e o seu mestre, um dos mais experimentados, depois de apreciada a situação, juntamente com o patrão do salva-vidas, o cabo de mar da capitania José Rabumba, o Aveiro, olhando ao recrudescer da maresia e do temporal decidiram-se por se fazer ao largo e rumaram a Leixões e se aquele verdadeiro lobo-do-mar, com uma folha de serviços rutilada de brilhante, aceitou retirar das imediações da tragédia, teve-se de acreditar, é porque era, materialmente, nada, absolutamente nada se poderia fazer pelos que se debatiam com as ondas. O rebocador LUSITANIA e a traineira S. SEBASTIÃO com o outro salva-vidas a reboque também tentaram aproximar-se do local do naufrágio mas a desistência do JUPITER” e a não presença do destemido patrão José Rabumba, o Aveiro, obrigou-os a desistir.
Note-se, que o JUPITER, 27m/114tb/450hp e o LUSITANIA, 25m/86tb/160hp, apenas eram óptimos rebocadores costeiros e portuários, não eram rebocadores de alto-mar, pois se o fossem aguentariam melhor a forte ondulação, além de não virem a ser tão facilmente alagados e como tal, possivelmente conseguiriam aproximar-se mais dos náufragos, dando-lhes alguma hipótese de salvamento. Muito provavelmente nem todos teriam essa sorte mas alguns, certamente viriam a ser resgatados, como aqueles dois desventurados que se agarravam aos troços de madeira e por pouco não foram salvos. A presença de uma embarcação de maior porte e boa máquina, sob a orientação de um prático da barra, seria determinante.


Desenho visionado pelo autor do texto
O vapor Alemão STAHLECK

O piloto José Fernandes Amaro Júnior contava ao autor, que caso estivesse embarcado no vapor Alemão STAHLECK, 77m/1.634tb, que na altura era pilotado pelo seu colega Hermínio Gonçalves dos Reis, o qual ficara impedido de demandar a barra do Douro e tendo a máxima confiança naquele excelente vapor da companhia DDG Hansa, Bremen, não deixaria de incitar o seu capitão e a respectiva equipagem para uma tentativa de aproximação ao vapor naufragado. Aliás, o STAHLECK recebeu de início, através da telegrafia de bordo, um pedido de S.O.S. emitido pelo DEISTER, o que o fez deslocar para a costa mas pouco depois rumou a Noroeste indo fundear para lá das três milhas. Também o paquete holandês FLANDRIA, gémeo do ORANIA, que se perdeu na bacia do porto de Leixões em 1934, 137m/10.171tb, da companhia K.H.L. (Mala Real Holandesa), Amesterdão, que se destinava a Leixões, captou o mesmo S.O.S. pelo que rumou à costa, porém vendo a impossibilidade de colaborar nas acções de salvamento, olhando ao seu excessivo porte, seguiu viagem, deixando de escalar Leixões devido ao temporal, que se avizinhava. Então, o STAHLECK largaria os dois ferros, com o máximo de amarra e deixar-se-ia descair de ré, após o que seriam lançadas ao mar várias bóias de salvação amarradas a retenidas e também nas mesmas condições arriar-se-ia uma baleeira salva-vidas não tripulada. Meios esses, que com a ajuda da ondulação, possivelmente derivariam para junto do DEISTER. Em face disso, talvez alguns daqueles desgraçados náufragos se atirassem ao mar e a nado, apesar da forte ondulação mas com a corrente ida do rio, pudessem alcançar aqueles meios de salvamento e acabariam por ser resgatados. Procedimentos idênticos já têm sido solução para salvamento de muitas vidas, por esse mundo fora.
A 15 de Abril, ou seja passado cerca de dois meses e meio, após o naufrágio de 03 de Fevereiro, o STAHLECK, cuja manobra de entrada em 17 pés de água era orientada pelo piloto Júlio Pinto de Carvalho, também encalhou na restinga do Cabedelo, ficando retido algumas horas, todavia com a força das águas de cima, sem que se previsse safou e foi mar fora sempre a bater com a quilha sobre o banco da barra e a ser envolvido por gigantescos andaços de mar, que o faziam adornar perigosamente, A multidão em terra, que assistia às manobras de desencalhe, chegou a temer pelo pior, visto o STAHLECK ter passado rente aos destroços do DEISTER. Felizmente tudo acabou por correr bem, indo de seguida aquele vapor abrigar-se a Leixões, sem mais percalços, a fim de aguardar nova maré para demandar o Douro.




Uma ronda penosa. Logo que a grande tragédia se consumou, os pilotos da barra Pedro Reis da Luz, Elísio da Silva Pereira, José Fernandes Amaro Júnior, Joaquim Matias Alves e Carlos de Sousa Lopes, pretenderam correr a costa, só que o comandante do posto da guarda-fiscal de Lavadores aconselhou-os a não o fazerem, visto a noite aproximar-se e toda a costa estar a ser patrulhada por praças da sua corporação, devidamente armadas e como tal interdita a quem quer que fosse. Às 07h00 do dia seguinte meteram-se a pé pela costa abaixo, desde o Cabedelo, caminhando por vezes sob alguma chuva e açoitados pela ventania, embora o tempo e sobretudo o mar estivesse muito mais calmo do que de véspera, à procura de corpos, que a maresia pudesse atirar à costa.



Três dos cinco pilotos, que calcorrearam léguas e léguas de areal, até muito perto de Cortegaça. Da esquerda para a direita Pedro Reis da Luz, que por ironia do destino, também perdeu a vida no naufrágio do iate-motor METEORO em 17.01.1947, Elísio da Silva Pereira e José Fernandes Amaro Júnior.

O que aqueles homens, que eram os únicos que poderiam identificar os tripulantes e o seu colega, dado que já tinham pilotado o DEISTER, passaram nessa jornada de humanitarismo, foi bem digno das grandes almas. Depois de terem calcorreado léguas e léguas até muito perto de Cortegaça, mais delas sobre areia gelada e molhada e para o fim já sob o escuro da noite, com as roupas encharcadas, tiveram de descalçar as botas para que os pés gelados pela água pudessem reagir. E, assim foram, em meias, ao principio, quase descalços quando elas se gastaram, até que deram com os cadáveres do 2º maquinista e do cozinheiro, que já tinham dado à costa, reconhecidos por aqueles elementos da corporação de Pilotos, nas praias da Aguda e Paramos, cujos pescadores locais se tinham atirado à água para os resgatar. Os pilotos José Fernandes Amaro Júnior e Carlos de Sousa Lopes chegados a Paramos tomaram o comboio e regressaram â Cantareira por instruções recebidas do piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão, a fim de seguirem para Leixões para embarcarem em vapores fundeados na bacia, devido a todos os restantes colegas se encontrarem ocupados noutros serviços e o piloto Hermínio Gonçalves dos Reis, que entretanto desembarcara do vapor STAHLECK, metera parte de doente. Em Paramos foram acolhidos em casa da mãe do seu colega José Fernandes Tato, que lhes prodigalizou toda a assistência de que necessitavam.
Longas e penosas foram as suas pesquisas, mas dedicação e sacrifício resultaram inúteis, pois que nem o seu desventurado companheiro de lides na barra nem mesmo outro qualquer, o mar os deixara encontrar. Apenas observando, pela costa adiante muitos destroços e, estranhamente encontraram em Valadares duas das quatro baleeiras salva-vidas, uma das quais, completamente intacta e ainda na Aguda a casa de navegação e o varandim. E assim regressaram, como vindos de passar as mais duras privações, sempre pela costa fora, com os olhos postos nesse mar raivoso, que lhes tragara o amigo dedicado e companheiro muito querido!
O corpo do piloto Jacinto José Pinto, o Zimbra, como era mais conhecido, deu à costa alguns dias depois, tendo o seu funeral tomado lugar a 15 de Fevereiro, desde a capela da N. Sra. da Lapa, cujas portas foram abertas na ocasião da desgraça, para que os crentes intercedessem à Virgem pela salvação dos naufragados, onde estivera depositado em câmara ardente, seguindo depois para a igreja paroquial, transportado num pronto-socorro dos B. V. do Porto, onde tivera lugar a celebração dos responsos, a qual se situava muito perto da residência do inditoso piloto, sita à travessa do Adro nº 6.
À passagem do cortejo fúnebre, o povo nas ruas chorava copiosamente numa manifestação colectiva de pesar, que era um traço psicológico bem digno de nota. A esposa do inditoso piloto com os filhinhos ao colo ou agarrados a si, apareceram a certa altura da penosa marcha, na companhia confortante de vizinhas, no alto de um muro sobranceiro à igreja, para dizer o último Adeus àquele, que fora o seu braço carinhoso e protector. E, então aconteceu uma cena, cujo relato seria tão supérfluo como doloroso. Enquanto a pobre viúva, numa agonia a que podia bem supor-se, agitava, num arranco derradeiro o lenço, que pendia na sua mão nervosa, o cortejo andando lesto, como se para fugir àquele lance seguiu rua das Laranjeiras abaixo, prosseguindo a caminho do cemitério paroquial da Foz do Douro, sob enormíssimo acompanhamento de pessoas de todos os extractos sociais, sobretudo da actividade marítima, incluindo tripulantes de vários navios surtos no Douro e Leixões, onde foi sepultado em jazigo próprio.
No jornal “O Comércio do Porto” de 05.02.1929 noticiando a tragédia, lia-se o seguinte trecho: «Porém, se considerarmos que o desastre se deu à vista de terra, a dois passos do Passeio Alegre, pôde dizer-se, que a tragédia redobrava, quintuplicando a angústia daqueles desgraçados!
Calcule-se o debate intimo, a saudade compungente e o desespero atroz que não teria acometido esses pobres homens, ao olharem, lá do mar, por entre os vagalhões medonhos que os iam engolir, a terra linda da salvação, e os milhares de pessoas que, à beira mar, assistiam desesperadas, à cena lancinante, sem nada poderem fazer, sem nada poderem tentar!
Ah! Mas dor imensa, como poucas vezes se há-de ter sentido, deve ter sido a do pobre piloto da barra, que era ali da Foz, e que, portanto, durante as longas horas em que aguardava a morte, pôde descobrir os contornos da casinha onde, às noites, repousava no seio abençoado dos seus quatro filhinhos tão queridos e da esposa dedicada!
Pobre homem! Morrer, a pouco e pouco, de pé, entre as ondas bravas, olhando a terra querida ali tão perto, fitando milhares de concidadãos e adivinhando os tectos do seu lar, sem poder, ao menos, fazer ouvir um derradeiro Adeus! Que tragédia lancinante!».
Naquele domingo gordo, que deveria ter sido um dia de muita alegria e de folguedos, tornou-se, verdadeiramente angustiante, tendo sido cancelados vários festejos carnavalescos e na Foz do Douro, os moradores da borda d’água, que de suas casas presenciavam aquele horrendo espectáculo, durante a hora do almoço não conseguiam tragar o que quer que fosse, tão incomodados estavam com aquela triste situação.
A 31 de Janeiro, uma quinta-feira, pelas 15h00, o DEISTER procedente de Antuérpia e Bremen, transportando carga diversa, demandou o porto de Leixões para aliviar parte da carga, a fim de reduzir o seu calado de água de maneira a permitir a sua entrada na barra do Douro. A 01 de Fevereiro, sexta-feira, estava um dia de forte neblina à mistura com alguma chuva, que prevaleceu desde as 05h00 até às 08h00. Às 07h00, apesar da pouca visibilidade entrou a barra sem qualquer percalço o vapor Português ANGRA, 86m/1.525tb e quando este vapor conduzido pelo piloto Júlio Pinto de Carvalho (Júlio Guerra), passava entre as bóias da Cantareira/Arribadouros, veio informação de Leixões, que estava à vista um outro vapor, o qual vindo do Norte navegava de rumo à barra do Douro. Em face disso o piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão, a fim de não se perder tempo, ordenou ao piloto Afonso da Costa Pinto, da secção de Leça da Palmeira, que saltasse a bordo e o conduzisse para a barra. Chegado diante da barra assinalou o seu calado de água de 15 pés com cinco toques da sirene de bordo. Em face da neblina persistente e alguma água de cima, aquele piloto-mor reunindo em consulta com os seus subalternos e não se conseguindo identificar o vapor para se saber das suas condições de leme e marcha, aliado à agua do monte e à neblina que persistia, foi recusada a entrada, ficando fundeado fora da barra, piloto embarcado, a aguardar uma próxima oportunidade.
A 02 de Fevereiro, sábado, ao fim da tarde entraram a barra o vapor carvoeiro Inglês IGHTAM, cerca de 75m/1.249tb, que era o vapor que chegara de véspera e ao qual fora negada a entrada e ainda o vapor de pesca Português FAFE, 41m/298tb, que rumaram aos seus ancoradouros sem qualquer contrariedade. O DEISTER, vapor de maior porte e calado de água, vindo de Leixões, dirigido pelo piloto Elísio da Silva Pereira, que fora para bordo de véspera, a fim de se fazer à barra ainda de manhã cedo, dado o nevoeiro persistir não entrou regressando a Leixões a fim de aguardar entrada no dia seguinte.
Nessa manhã trágica de Domingo, dia 3, ainda de madrugada, os pilotos Jacinto José Pinto e o José Fernandes Amaro Júnior apanharam o carro eléctrico da linha 1 para Leça da Palmeira, a fim de irem embarcar dentro do porto de Leixões nos dois vapores, que se destinavam ao rio Douro e que por razões de calado estiveram a aliviar carga. Já de véspera tinham vindo à barra, contudo as condições de neblina e tempo instável não lhes permitira a entrada.

Jacinto Jose Pinto, o desditoso piloto da barra (imagem da esquerda) e o seu colega José Fernandes Amaro Júnior (imagem da direita).

O primeiro, daqueles dois pilotos, embarcou no DEISTER e o segundo no Italiano DORIDE, este bastante difícil de leme e máquina, possivelmente iria entrar a reboque do rebocador BURNAY 2º. O DORIDE, 75m /1.507tb, pelo seu calado de água menor, deveria ter deixado a bacia do porto de Leixões e demandado a barra do Douro antes do DEISTER, simplesmente assim não sucedeu, devido às suas amarras terem várias voltas e encontrarem-se enrascadas com as do vapor Português SANTA IRIA, que iria cambar para o Norte, conduzido pelo piloto Manuel Pinto da Costa, o qual estava acompanhado do seu colega de Viana do Castelo, que veio embarcar a Leixões para lhe dar entrada naquele porto minhoto, tendo demorado bastante tempo a suspender os ferros, pelo que o vapor Alemão cruzou os molhes à sua frente e fez-se à barra do Douro.


Desenho visionado pelo autor do texto
O DORIDE da linha do armador Servizio Italo-Portoghese S.A. di Navigazione, Génova.

Quando as duas amarras estavam soltas e os dois ferros a surgirem ao lume de água, o piloto José Fernandes Amaro Júnior, na ponte de comando, olhando para sul vislumbrou o DEISTER a sair a barra batido por enormes e perigosas voltas de mar, já metido de proa e a afundar-se. Então disse ao capitão, vamos amarrar novamente, porque já não temos entrada no rio Douro e pegando no manípulo da sirene, apitou várias vezes a chamar a embarcação dos pilotos e a alarmar por socorro, chamando também a atenção dos rebocadores LUSITÂNIA e JUPITER, este acabado de chegar da barra do Douro, após ter estado a tentar safar o DEISTER da restinga do Cabedelo.
Regressado à Cantareira, o piloto José Fernandes Amaro Júnior ao apear-se do carro-eléctrico na paragem dos Pilotos e olhando para o vapor, que já se encontrava semi-submerso, deparou com a chaminé do vapor a cair, permanecendo os dois mastros e a casa de navegação à superfície e depois de passar pela corporação apressou-se a seguir para sua casa, a fim de sossegar os seus pais, irmãos e irmãs, que banhados em lágrimas e lamentando a sorte do piloto e de toda a equipagem do DEISTER, o abraçaram efusivamente. A princípio constava, que ele era o piloto do DEISTER e de facto poderia ter sido, caso o seu camarada Jacinto José Pinto, que estivera de parte de doente, não se tivesse apresentado ao serviço de véspera à noite.
Á Foz, no domingo, apesar da chuva ininterrupta e do vento violentíssimo, dirigiram-se milhares de curiosos, juntaram-se dezenas de automóveis, seguindo os eléctricos apinhados. Chegando mesmo a acorrer à Foz gente de terras distantes.
A 22.06.1929 o vapor salvadego da Marinha de Guerra NRP PATRÃO LOPES deslocou-se à barra do Porto, a fim de proceder â avaliação dos destroços do DEISTER, vindo para tal munido de aparelhagem própria e mergulhadores da armada. Os mergulhadores que desceram ao fundo do mar constataram a presença de carga nos porões e puderam observar, que o casco estava alquebrado a meia-nau. Após estes trabalhos, o NRP PATRÃO LOPES foi trabalhar no local onde jazia o casco do vapor grego VIRGINIA, que encontrado abandonado ao largo da costa foi trazido por várias traineiras em 24.11.1928, acabando por submergir junto do Castelo do Queijo, mais propriamente num dos enfiamentos de acesso ao porto de Leixões.


Salvadego PATRÃO LOPES / (c) desenho de Luis Filipe Silva /.

Nos primeiros anos da pós-guerra, a filha do Cdt. August Becken, capitão do DEISTER, a qual acompanhava o seu marido, capitão do navio-motor Alemão ELISABETH, que após ter saído do porto de Leixões rumou ao local onde se dera o naufrágio e o seu pai tinha perecido, tendo então lançado ao mar uma coroa de flores como homenagem ao seu progenitor e a todos os seus camaradas de infortúnio, cujos corpos daqueles que foram arrojados à costa estão sepultados no cemitério da Agramonte.
Curiosamente os quatro vapores referidos neste texto, também tiveram acidentes na barra do Douro ou nas suas imediações, se bem que de muitíssima menor gravidade. A 23.03.1930, o FAFE, piloto Carlos de Sousa Lopes, quando deixava a barra, devido a uma avaria na máquina do leme, foi colidir com o dique da Meia-Laranja danificando a proa e fazendo avarias no cais, ainda hoje visíveis. A 27.03.1932, o ANGRA quando na madrugada de 27.03.1932, sem que pudesse fundear devido à forte agitação marítima, evolucionava diante da barra do Douro e devido à falta de visibilidade motivada pelos fortes aguaceiros, foi encalhar diante da pedra do Cão, a sul do Cabedelo, povoação de Lavadores. Embora o vapor fosse considerado perda total, a sua tripulação foi resgatada, através do cabo de vaivém, durante a manhã. A 26.02.1934, o DORIDE, piloto João António da Fonseca, quando demandava a barra sob água de cima, partiu-se um dos gualdropes do leme e foi sobre o enrocamento do cais Velho. O rebocador VOUGA 1º acorreu em seu auxílio e foi safo. A 23.03.1934, o IGHTAM, piloto Francisco Soares de Melo, demandava a barra com água de cheia, guinou a Sueste e foi encalhar de popa na restinga do Cabedelo. Mais tarde safou pelos seus próprios meios e atravessado foi barra fora, quase encalhando nas pedras da ponta do Dente, caso não tivesse largado um dos ferros. Logo que lhe foi possível fez-se de novo à barra a reboque do VOUGA 1º, mesmo assim desgovernou a bombordo foi encostar de proa ao enrocamento do cais Velho, logo que safo seguiu para montante.
Como sempre acontece nas situações de acidentes marítimos e a fim de se tentar minorar as dificuldades monetárias dos familiares mais chegados dos náufragos desaparecidos, também muitas instituições oficiais, colectividades, etc. entregaram donativos e realizaram subscrições a favor da viúva e órfãos do infeliz prático da barra Jacinto José Pinto e a Associação dos Armadores Marítimos e Agentes de Navegação do Porto e Leixões, também abriu uma subscrição e apelaram à Corporação dos Pilotos da Barra para tratar de organizar uma caixa de socorros para protecção de casos idênticos, que eventualmente pudessem vir a acontecer, uma vez que as taxas de pilotagem pagas davam margem para tal fim humanitário.
De facto os pilotos da barra não estavam protegidos na doença, morte, acidente, etc., porque algumas décadas antes, cada piloto possuía a sua própria embarcação, a chamada catraia das amarrações, não recebendo qualquer ordenado e como tal cobravam os proventos por cada serviço prestado, directamente do consignatário ou mesmo do capitão ou mestre do navio, os quais também lhes concediam, voluntariamente uma gorjeta, que perdurou pelos tempos fora. Desses proventos, deduziam uma percentagem para o pessoal auxiliar contratado ou eventual e para a administração da sua corporação, etc. O próprio escriturário da corporação era um piloto da barra. O piloto José Fernandes Amaro Júnior, pai do autor, contava, que por volta dos seus 11 anos de idade (1910), além de ir de moço nas catraias das amarrações, muitas vezes conduziu a remar à ginga a caíca dos pilotos até junto da Meia Laranja para recolher os pilotos dos iates, palhabotes e lugres à vela mercantis ou bacalhoeiros, que a reboque iam de saída e cada piloto compensava-o com um vintém por essa tarefa.
Raul Brandão na sua obra “OS PESCADORES” relata o seguinte: «O senhor piloto-mor passeia no cais com as mãos atrás das costas ralhando aos velhos da Pensão», diz aquele grande escritor, ao capítulo Foz do Douro – A Cantareira. É que, ainda em 1920, o pessoal menor dos pilotos não era efectivo, razão por que se recrutava entre os marítimos quando havia navios para entrar ou sair. Assim como adventícios, apenas trabalhavam quando solicitados, pois o sistema tinha a designação de “chamadoiro”; mas os da “Pensão”, eram já permanentes, ou sejam sempre os mesmos e portanto com vencimento garantido. Por tal facto, como tinham sempre pensão, o piloto-mor escolhia os mais idosos e até porque eram os mais conhecedores. Daí a razão do nome que designava a catraia (in “RIO DOURO E O SEU PORTO” – piloto-mor José Fernandes Tato – 1946/65).
Embora os pilotos da barra e seus mais próximos familiares não tivessem qualquer protecção seguradora ou social, contudo o pessoal auxiliar contratado ou eventual, que trabalhava sob a sua dependência, esses beneficiavam de seguro, que cobria os riscos por acidente e, consequentemente doença, morte, etc. O respectivo prémio de seguro era pago pelos próprios pilotos.
Assim o trágico acidente do DEISTER deu azo a que os pilotos da barra instituíssem a “Caixa de Pensões a Viúvas e Órfãos dos Pilotos da Barra do Douro e Leixões”, fundada em 18.08.1930, caixa essa, que nada tinha a ver com a chamada “catraia da pensão” ou seja a embarcação de pilotar a remos e vela. Lamentavelmente alguns pilotos não aderiram, criando situações embaraçosas às suas viúvas e órfãos, após os seus falecimentos. A viúva e os órfãos do desventurado piloto Jacinto José Pinto, embora desde inicio estivessem a auferir de uma pequena verba, passaram de imediato a beneficiar da referida caixa, cuja pensão, ainda há poucos anos lhe era remetida para a sua terra natal, no interior do país. Uma tentativa feita para a formação de uma caixa de pensões do pessoal assalariado, falhou por divergências entre os seus elementos, todavia uma idêntica tentativa lançada pelo pessoal assalariado da Corporação de pilotos de Lisboa vingou por consenso geral.
Mais tarde, para fazer face à pensão paga às viúvas e órfãos do pessoal incorporado segundo as receitas oficiais e outra, que lhes completava, com aquela, mediante receitas particulares, ainda que oficializadas, passou a reverter os ganhos dos serviços efectuados pela lancha P3 e da bóia de apoio às amarrações do molhe Sul do porto de Leixões, até nova alteração administrativa da Corporação de Pilotos, após a revolução de Abril de 1974.
Na verdade, devido a uma queda sobre a lancha de boca aberta P3, que o piloto José Fernandes Amaro Júnior dera ao desembarcar do paquete inglês HILARY em 10.04.1934, entre molhes, em dia de agitação marítima, o qual ficara bastante maltratado com cerca de dois meses de incapacidade para o trabalho e por pouco não perdera a vida, a corporação recusara-se a pagar-lhe as despesas das consultas médicas, enfermagem e medicamentos, etc. Em face da recusa recorreu ao Chefe do Departamento Marítimo do Norte, o qual contactou o piloto-mor para que aquele piloto fosse ressarcido do valor das referidas despesas e chamou a atenção para que de futuro fosse feito um seguro, que cobrisse todos os riscos a que os pilotos e seus assalariados estivessem sujeitos, o que foi cumprido.
Tal como a tragédia do PORTO, ocorrida na barra do Douro a 28.03.1852, também a do DEISTER, passou a fazer parte dos grandes naufrágios para a história trágico-marítimo mundial mas muito particularmente da barra do Douro e de Portugal, que fez chamar a atenção das autoridades governamentais para a construção de uma barra com um mínimo de condições e segurança, que parece, então ter caído em ouvidos moucos, salvo obras de manutenção e quebramento de rochas, a qual só passado tantos e tantos anos, apesar de novos sinistros ocorridos, dentre os quais se destaca os do GAUSS, INGA l, LAURINDA, METEORO e de um ínfimo número de pequenas embarcações de pesca com a perda de valiosas vidas humanas, particularmente do centro piscatório da Afurada, só agora acabou por ser realizada, com a construção de uma nova barra, cuja inauguração ocorreu a 20.03.2009, depois de várias polémicas e apresentação de alternativas que além de ineficazes eram ridículas, que embora tudo leve a crer, que não seja a barra ideal tão ambicionada, porém tornou-se um bastante melhor do que a anterior. Valha-nos ao menos isso!
Fontes: piloto José Fernandes Amaro Júnior, Imprensa diária, Miramar Ship Index, Rio Douro e o Seu Porto (piloto-mór José Fernandes Tato), A Barra da Morte – A Foz do Rio Douro (autor Rui Picarote Amaro, editor O Progresso da Foz).
(Continua)
Rui Amaro

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 9



FALHA DE MÁQUINA NUMA MANOBRA DE SAIDA DO RIO DOURO



Narrativa textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, relacionada com o seu serviço de saída do vapor inglês LORD RHONDDA.
«Pelas 11h00 de 04/06/1927, estando eu ao primeiro da esquadra de dentro, foi recebido um telegrama pedindo piloto para a saída do vapor inglês LORD RHONDDA, pelo que o piloto-mor chamou-me ao seu gabinete para me comunicar que aquele vapor estava pronto a largar às 15h00 e o seu calado era de 16 pés, e disse-me para logo que acabasse de almoçar seguisse para cima a fim de colocar o vapor em franquia, dado que os ferros poderiam estar cativos com os de outros navios.
Às 13h45 a catraia, conduzida por dez remadores e o respectivo arrais, largou da lingueta dos Pilotos e seguiu rio acima até abordar o LORD RHONDDA, que estava amarrado no lugar do Sandeman, margem de Gaia, tendo um vapor a montante e dois lugres prolongados a jusante. Verificado o calado e a disposição das amarrações, subi a bordo e já na ponte, o capitão exibiu os usuais documentos de saída (alvará da Alfandega, desembaraço da Capitania e da Policia) e preencheu-me o boletim com os dados do vapor para corporação de pilotos, a fim do respectivo escriturário/claviculário emitir a respectiva cédula dos valores do serviço para a agência do vapor e ainda me comunicou que já experimentara a máquina, leme e sirene, não tendo detectado qualquer falha, pelo que estava tudo em boa ordem para se iniciar a manobra.
Às 15h00 iniciei a manobra, virando os dois ferros à proa e como não vinham safos, pois estavam pegados no cabo do ancorote de popa do vapor de jusante, pelo que mandei soltar os dois cabos de terra, á proa, e também o cabo de popa, ficando apenas com o ancorote à ré, pelo noroeste. Entretanto fui para o castelo da proa para orientar a manobra de safar os ferros à proa, o que passado algum tempo foi resolvido com sucesso, contudo ainda com o ferro de bombordo na água, o vapor começou a descair de popa para terra, para cima de um pião de barcas, pelo que mandei virar o ancorote dos pilotos, à popa, e de seguida o ferro de proa e regressei à ponte e ordenei marcha avante força para se desviar das barcas, contudo o vapor ficou um pouco atravessado pelo que mandei andar à ré toda força e quando vi que estava safo das barcas, dei-lhe toda força avante.
Eu tinha o costume de ir observar qual a direcção que a água do trabalhar do hélice levava, e reparei que ela ia para vante, mas o vapor estava quase a parar, pelo que disse ao capitão para meter máquina avante toda a força, mas o maquinista não atendia aos sinal do telégrafo, que acusava avante toda a força, e o capitão repetiu o sinal quatro vezes, inclusive pelo intercomunicador, mas não havia meio do vapor ir de marcha avante, pelo que algo de anormal se passava na máquina. Então ordenei ao capitão que fosse lá abaixo verificar o que se passava e para o maquinista meter marcha avante, porque o vapor estava a ir, perigosamente sobre os piões de barcas do vapor inglês OTTERBURN, 80m/1.456tb, Smith Hogg & Co., West Hartlepool, carregadas de carvão, e eu já não sabia que mais manobras haveria de realizar, uma vez que o navio parecia estar com falha de máquina e nem largar os ferros resolveria o problema, e isto no meu principio de carreira, o que era uma situação muito desagradável.
O Zé Bexiga, de bordo da catraia que estava à popa, berrava dizendo para eu meter marcha avante, só não sabia que a máquina deixara de funcionar.
Entretanto o vapor foi sobre as barcas, mas um calafate, meu camarada do tempo de tropa no Quartel de Minas e Torpedos Fixos de Paço de Arcos, fazia-me sinal que não houvera avaria alguma, porque o LORD RHONDDA meteu-se por uma aberta de dois piões de barcas, felizmente.
Mais calmo, fiz ver ao capitão, que ia chamar o rebocador, a fim de sair-mos daquela situação embaraçosa, ao que ele recusou, dizendo que não haveria necessidade. O meu colega Afonso Pinto da Costa, que estava a bordo do navio-motor norueguês SEVILLA, 85m/1.383tb, Otto Thoresen, Oslo, amarrado do lado norte, Ribeira, à espera que eu desandasse o meu vapor de proa abaixo, para ele começar a sua manobra de saída, dizia-me para chamar o rebocador. Insistindo com o capitão da necessidade daquele auxílio, o capitão vendo que a situação estava-se a tornar complicada, acabou por concordar comigo, então peguei no manípulo e apitei a chamar o rebocador BURNAY 2º, cujo mestre Marcelino, já se aproximava e pegou à proa, e com a máquina já a trabalhar lá se retirou o vapor dos piões das barcas e desandou-se de proa a jusante.
Rumando à barra, a draga PORTO estava a dragar no Banco de areia dos Banhos ou da Porta Nova, pelo que disse para meter marcha avante devagar e para timoneiro ir com muita atenção, porque íamos entrar no canal muito esganado, que é encostado à penedia das Lobeiras de Gaia, qual foi o meu espanto e do capitão, o maquinista que de certeza estava bêbedo ou tolo, meteu marcha avante força. O capitão muito espantado com a situação, foi ao manípulo do telégrafo e repetiu para a máquina avante devagar mas já não foi a tempo, porque lá cruzamos o canal de marcha avante força, felizmente sem qualquer percalço. Passado o perigo, o capitão muito incomodado foi lá abaixo, insurgir-se com o maquinista, e com muita razão.
Depois seguimos rio abaixo, passando a barra sem mais novidade. Às 16h30 desembarquei para a lancha P4, e o LORD RHONDDA, que viera descarregar carvão de Barry Docks e agora rumava àquele porto do País de Gales com carregamento completo de toros de pinheiro (piptrops) destinados ao escoramento das galerias das minas de carvão.
Chegado à corporação fui dar parte da ocorrência ao piloto-mor, fazendo-lhe ver que felizmente não houve avarias, pelo que me disse que não haveria necessidade de participação ao capitão do porto, e que podia ir-me embora e não me preocupasse com o sucedido».
Note-se que o uso de rebocadores para auxiliar as manobras dos navios no porto comercial do Douro durante anos e anos jamais foi obrigatório, mesmo para aqueles de grande porte, e muitos capitães recusavam-se a aceitar tal auxilio, e os pilotos viam-se e desejavam-se para os convencer, isto pelo menos antes da guerra de 1939/45.
LORD RHONDDA, 84m/1.744tb, 10 nós; 03/1918 entregue por Wood Skinner & Co., Bill Quay, para Rellands Shipping Co. Ltd. ( gestores H.O. King), Londres; 1928 OTTINGE, Constants France (South Wales) Ltd, Cardiff; 1937 TINGE, Soedeco; 1938 RONWYN, Stockwood Rees & Co., Swansea; 1943 capturado pelos alemães e rebaptizado de HOCHHEIMER, governo alemão; 21/05/1944 torpedeado e afundado pelo submarino HMS SCEPTRE (P-215), Lt. I.S. McIntosh, DSC/MBE/RN. No mesmo ataque os torpedos falharam atingir os patrulhas da “Kriegsmarine” V-402 e V-405, que comboiavam o HOCHHEIMER, ao largo de Bilbau, posição 43-24N/03-30W.
Fontes: Miramar Ship Index, WW2 HMS Submarines
(continua)
Rui Amaro

sexta-feira, 17 de julho de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES – Episódio 8


RECORDANDO O NAUFRÁGIO DO VAPOR «MOURÃO» NA RESTINGA DO CABEDELO


A 10/04/1928, pelas 13h00, encontravam-se fundeados ao largo da costa aguardando piloto, a fim de se fazerem à barra, logo que as condições de mar e água o permitissem, os vapores: ingleses LORD RHONDDA e REDSTART; alemães OLDENBURG e ERNST, norueguês SADO e ainda o português MOURÃO.Desses seis vapores, apenas foram pilotados o REDSTART, piloto José dos Santos Jeremias, que foi o primeiro a entrar a barra, seguindo-se-lhe o OLDENBURG, piloto José Manarte, que seguiram rio acima sem qualquer percalço. Cerca das 15h00, pelo enfiamento usual, fez-se à barra o MOURÃO, piloto Manuel Pinto da Costa, procedente de Cardiff com um carregamento de carvão e logo de seguida formou-se um enorme andaço de mar pela sua popa, que acabou por envolver o vapor de lés a lés, originando ter-se quebrado o gualdrope do leme.



O piloto vendo, que o vapor tinha perdido o governo, derivando para estibordo e a ser impelido pelo mar em fúria para cima do banco da barra, mandou largar o ferro de bombordo, no intuito de aproar ao mar e aguardar auxilio. De seguida içou o sinal de bandeiras indicativo de “embarcação sem governo” e com a sirene de bordo a silvar estridentemente, pedindo socorro imediato. O vapor fazendo-se ao ferro virou a proa pelo Noroeste e pouco depois desandou a proa pelo Sul, tendo a maresia tomado posse dele, fazendo-o descair, rapidamente pelo Sul das pedras denominadas de Fogamanadas, a Sul da restinga do Cabedelo, onde acabou por se deter encalhado, com os andaços de mar a cair em cheio sobre o vapor, fazendo perigar o pessoal a bordo.
Dado o alarme foi içado, no mastro da Estação de Socorros a Náufragos, o sinal indicativo de sinistro no mar, saindo imediatamente da Cantareira a lancha salva-vidas da Foz do Douro e várias embarcações dos pilotos da barra, a fim de organizarem o serviço de resgate da tripulação naufragada, já que do vapor e da sua carga não havia qualquer possibilidade.
Assumiu a direcção desses trabalhos, que foram executados com toda a prontidão, o cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles, experimentado nestas situações, muito especialmente no lançamento do foguetão, coadjuvado pelos seus subalternos, pilotos José Ribeiro, Francisco Piedade, Manuel Pinto dos Reis, Júlio Pinto de Carvalho, Elísio da Silva Pereira, Eurico Pereira Franco, Amaro António da Fonseca, José Fernandes Amaro Júnior, João António da Fonseca, António Gonçalves dos Reis, Afonso da Costa Pinto e Joaquim Matias Alves e um ou outro assalariado da Corporação de Pilotos.
Simultaneamente, foram chegando ao cais do Marégrafo as viaturas dos Bombeiros Municipais do Porto (Secção da Foz do Douro), Voluntários do Porto, Portuenses, Ermesinde, além das auto-macas da Cruz Vermelha e da Cruz de Malta.
Várias embarcações transportaram para o Cabedelo grupos de bombeiros, a fim de colaborarem nas várias acções de socorro aos náufragos, conforme as circunstâncias o permitissem, fazendo a travessia do rio sob fortes bátegas de chuva e bastante vento. No Cabedelo juntaram-se as lanchas salva-vidas da Foz e da Afurada e o cabo-piloto Alexandre Cardoso Meireles tratou de lançar vários foguetões, a fim de estabelecer o cabo de vaivém, não dando porém, resultado as tentativas feitas nesse sentido, devido à impetuosidade do vento, que lhes mudava a directriz. Inteligentemente, de bordo do vapor sinistrado lançaram ao mar uma bóia de salvação amarrada a uma retenida. Essa bóia foi arrojada à praia, auxiliada pelos desmesurados vagalhões, a qual foi recolhida pelo pescador da Afurada, José Idaínha, que corajosamente se lançou à rebentação, correndo sério risco de se afogar.



Uma vez, estabelecido o cabo de vaivém, foram todos os tripulantes e o piloto da barra retirados de bordo, um a um pela bóia-calção e conduzidos pelas embarcações dos pilotos e lanchas salva-vidas para a Cantareira, seguindo dali, transportados em auto-macas, seis tripulantes para o Hospital da Misericórdia (Hospital Geral de Santo António), por se encontrarem feridos ou entorpecidos pelo frio. Todos eles estavam completamente encharcados, dando no entanto Graças a Deus por se lhes ter acudido a tempo, livrando-os do martírio de a bordo estarem a ser incessantemente fustigados pelos enormes vagalhões, que varriam o MOURÃO de borda a borda mas também de uma morte certa.
À sua chegada ao cais dos pilotos, deram-se algumas cenas comovedoras com efusões de simpatia, que lhes foram tributadas por familiares ou pessoas amigas. Alguns deles foram levados ao colo, desde o desembarque até várias residências locais, onde eram carinhosamente acolhidos e confortados. Um dos fogueiros, Salestiano Ferreira de Oliveira, foi recolhido na estação dos pilotos da barra, tendo-o piedosamente brindado com uma boa camisola de lã, a gentil senhora D. Maria da Conceição Valadas, da rua do Passeio Alegre.
Os cais próximos do naufrágio, como é normal em acontecimentos destes, encheram-se de populares curiosos, que acorreram ao local alarmados pelos silvos aflitivos do vapor acidentado, pedindo socorro urgente. Aqueles populares perscrutavam para os lados da restinga do Cabedelo, o desenrolar do emocionante drama, receando pela sorte dos tripulantes.
MOURÃO, 62m/832tb, 10 nós, 24/06/1918 entrega pelos estaleiros NV Werft Gusto, Schiedam, como ZEEHOND ao armador Willem van Dam, Roterdão; 1919 HOOGVLIET, Soetermeer Fekkes, Amesterdão; 1923 MOURÃO, Guilherme Machado & Cia., Lda., Porto, que o empregava no transporte de carvão do Pais de Gales para Portugal, particularmente para o porto do Porto, e no retorno carregava toros de pinho para escoramento das minas daquele país do sul das Ilhas Britânicas. Do mesmo armador fizeram parte o vapor de pesca de arrasto MACHADO e o pequeno rebocador fluvial MANOLITO.


Fontes: José Fernandes Amaro Júnior, Imprensa diária, Miramar Ship Index Groninger Kustvaart.
Imagens: Imprensa Diária e Groninger Kustvaart.
(Continua)
Rui Amaro

quinta-feira, 16 de julho de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES - Episódio 7

TRÊS VAPORES DEMANDAM A BARRA DO DOURO COM ÁGUAS DE CHEIA – DOIS CRUZAM-NA SEM PERCALÇOS, PORÉM UM TERCEIRO DETÉM-SE ENCALHADO NO BANCO DE AREIA DA BARRA

O piloto José Fernandes Amaro Júnior na ponte de comando do vapor DARINO

Narrativa textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, relativa ao seu serviço de condução de entrada do vapor inglês DARINO e do acidente com o vapor alemão KURT HARTWIG SIEMERS.
«A 28/12/1927, pelas 13h00, avistavam-se ao largo da costa 14 vapores aguardando entrada na barra do Douro. Às 14h00 a lancha P4 saiu a barra ao encontro de três daqueles vapores. Para o norueguês STROMBOLI saltou o piloto Eurico Pereira Franco e para o carvoeiro alemão KURT HARTWIG SIEMERS foi o piloto Afonso da Costa Pinto e eu subi a bordo do inglês DARINO. Os restantes vapores continuaram fundeados fora da barra na expectativa de melhores condições de água e maré para o dia seguinte.
Às 15h00, o piloto-mor José Pinto de Almeida (Pantaleão) mandou içar nos mastros do cais do Relógio e do castelo da Foz os grupos de bandeiras para 14 pés de água. O DARINO estava em 13 pés e como tal mandei seguir a toda força avante, tomando a dianteira, entrando a barra sob forte corrente de cheia e na popa veio o STROMBOLI. Ao passar no lugar do Ouro, olhando para a barra vi o KURT HARTWIG SIEMERS ir de guinada a estibordo para cima do banco da barra. O capitão observando de binóculos, diz-me o vapor alemão está encalhado e de facto ficara em situação critica.
As bóias de sinalização estavam afogadas ou tinham desaparecido devido à cheia, principalmente as da Cantareira/Arribadouros, se bem que para nós pilotos práticos a falta daqueles meios de referência não era motivo de preocupação, dado o nosso profundo conhecimento da navegabilidade e manhas da barra e do rio, jamais o movimento marítimo ficara paralisado por falta de bóias. No entanto, em caso de extrema necessidade, arranjavam-se alguns pedaços de cortiça sobrepostos, levando no meio uma vara de madeira ostentando no topo um pano vermelho e cordame suficiente amarrado a uma pesada poita, a qual era lançada à água no lugar da bóia submersa ou desaparecida e que durante a maré serviria de baliza ou então, a embarcação do piloto-mor ou da assistência ficava a sinalizar o local.
No lugar do Ouro fazia bastante corrente, pelo que o Doutor Raul Monteiro de bordo da baleeira da Sanidade Marítima fez-me sinal para não parar, que prosseguisse para cima e que quando viesse para a Cantareira, lhe fosse entregar a declaração de saúde preenchida e assinada pelo capitão e sendo assim, após ter pegado a catraia dos pilotos a reboque, continuei a toda força avante para o vapor não perder o governo e vencer a corrente, contudo o avanço pouco ou nada progredia. Chegado ao lugar do Quadro da Alfândega, com quase uma hora de navegação, dei fundo a dois ferros pela ré do vapor alemão VESTA, com reforço de cabos para terra e ancorote pela popa para sudoeste, e após certificar-me que as amarrações estavam em ordem regressei na catraia da amarração à Cantareira, não deixando de passar pela estação da Sanidade Marítima, ao Ouro, para entregar a declaração.
Junto à sede da corporação dos pilotos, na casa da Alfândega, constatei que os rebocadores LUSITÂNIA da praça do Porto e o AMÉRICA da de Lisboa estavam a puxar pelo KURT HARTWIG SIEMERS e após algum tempo conseguiram retirá-lo da situação melindrosa em que se encontrava, levando-o para fora da barra e conduzindo-o de seguida para a bacia do porto de Leixões. Felizmente, durante as manobras de resgate daquele vapor carvoeiro, a ondulação não era perigosa, pois se assim fosse poderíamos ter a acrescentar mais uma tragédia às muitas em que a barra do Douro tem sido fértil. No dia seguinte fez-se à barra do Douro auxiliado pelo LUSITÂNIA, sob a orientação do piloto Eurico Pereira Franco, tendo amarrado no lugar do cais do Cavaco, sem mais percalços».
KURT HARWIG SIEMERS, 75m/1.147tb, 8 nós; 16/02/1918 lançado à água pelo estaleiro NV Wilton´s Scheepswerf & Maschinefabriek, Roterdão, como EIGEN HULP III para NV Stoomvaart Mij. “Eigen Hulp III”, Roterdão; 1918 GRAAF LODEWIJK, NV Scheepvaart Mij. Oranje Nassau, Roterdão, Th. Van Slooten como gestores; 1921 GRAAF LODEWIJK, imobilizado em Roterdão; 1922 KURT HARTWIG SIEMERS, G.J.H. Siemers & Co., Hamburgo; 11/02/1943 em viagem de Nidingen, Suécia, para a Alemanha, transportando 1.000 toneladas de papel, perdeu-se por afundamento, após encalhe em Klockfotsrev, Suécia.


O DARINO enfrentando a forte corrente de cheia do rio Douro, entre as bóias dos Arribadouros/Cantareira, que se encontravam afogadas ou desaparecidas em 28/12/1927 / (c) foto de autor desconhecido /.

DARINO, 76m/1.351tb, 10 nós; 10/1917 entregue pelo estaleiro Ramage & Ferguson, Leith, à Ellerman Wilson Line, Ltd., Hull; 1921 transferido para a Ellerman & Papayanni Lines, Liverpool; 19/11/1939, no inicio da conflagração mundial, quando em rota do rio Douro para Liverpool transportando vinho do Porto, sardinha em conserva e minério, foi torpedeado e afundado pelo submarino alemão U-41, Kapitanleutnant Gustav Adolph Mugler, ao largo do Cabo Ortegal, Corunha, tendo perdido a vida 16 dos seus tripulantes, entre os quais o seu comandante, Captain William James Ethelbert Colgan, sendo recolhidos pelo próprio submarino 11 sobreviventes, tendo recebido toda a assistência que usualmente é prestada a náufragos, e mais tarde, avistado um navio neutro, foram os ingleses transferidos para o vapor italiano CATERINA GEROLIMICH, 120m/5.430tb, que os fez desembarcar no porto de Dover.
O DARINO deixara a barra do Douro completamente camuflado de cinzento-escuro, e o signatário do blogue, apesar da sua tenra idade de então, pela mão de seu pai, ainda tem uma vaga memória da sua passagem diante do cais dos Pilotos, assim como a do ESTRELLANO.
Extracto da noticia do afundamento no jornal australiano “The Sydney Morning Herald” – 25/11/1939.
“Sobreviventes do vapor britânico DARINO, que foi afundado por um submarino germânico às 03h00 de Domingo, relataram que o submarino ao alvejar o DARINO, destrui-lhe as baleeiras salva-vidas e só depois é que o afundou com torpedos.
Dezasseis membros da tripulação foram atingidos pelas explosões tendo os mesmos desaparecido com o seu vapor. Os onze sobreviventes, que nadando ou agarrados aos destroços nas águas geladas cerca de meia hora, ouviram o comandante do submarino na torre dizer “all right, I’m coming”. Ele recolheu os sobreviventes a bordo, tendo sido agasalhados e acomodados em tarimbas, servido café, conhaque, vinho, pão escuro, manteiga e bifes.
Entretanto, foi avistado um barco de guerra britânico e então o submarino teve que submergir por 20 minutos e a pressão fez com os tímpanos dos ingleses “estourassem”. Ficaram a aguardar as cargas de profundidade, a qualquer momento, que não chegaram a ser lançadas. Algum tempo mais tarde, o submarino emergiu e rumou por algumas horas até se avistar um vapor mercante italiano para o qual foram transferidos os sobreviventes, que desembarcaram no porto de Dover”.
Os vapores CRESSADO, ESTRELLANO, PALMELLA, LISBON e OPORTO eram os principais parceiros do DARINO no referido tráfego, os quais também se perderam por acções de guerra e das suas equipagens também fizeram parte alguns tripulantes portugueses das zonas ribeirinhas do estuário do Douro.
Após o final do conflito e no período de 1947/48 foram construídos os navios-motor gémeos, CROSBIAN, LUCIAN, MERCIAN, PALMELIAN e DARINIAN para preenchimento da vaga deixada pelos seus antecessores e que passaram a ser apelidados em Portugal de “Brancos” e no Reino Unido de “Market Boats”, os quais resistiram até 1967/70, tendo sido vendidos a interesses gregos e cipriotas, excepto o PALMELIAN que acabou os seus dias desmantelado em sucata, no porto de Bilbao. Primitivamente eram pintados com as cores características do seu armador, que era o branco, cinzento e linha de água vermelha, logo após as primeiras viagens, essas cores foram alteradas para branco e linha de água vermelha, regressando à pintura original, aquando da sua disponibilidade. Eventualmente faziam viagens ao Mediterrâneo.

O PALMELIAN subindo o rio Douro diante de Massarelos na década de 50 / (c) F. Cabral /.

No final da carreira daqueles navios, entraram ao serviço os navios-motor gémeos MALATIAN, CATANIAN, 82m/1.407tb, construídos em 1958 por Henry Robb Ltd, Leith e o CORTIAN, 72m/537tb, construído em 1962 na Suécia, além de alguns navios fretados. Com o aparecimento do tráfego contentorizado em 1968, passaram a escalar o rio Douro, terminal de contentores do cais de Gaia, que foi o primeiro do país, primitivamente o porta-contentores ESTREMADURIAN, 82m/1.921tb, e algum tempo depois os então recém-construídos MINHO, TAMEGA, TAGUS, MONDEGO, TORMES, TRONTO, TIBER e TUA, 85m/1,578tb, os quais deixaram de o fazer devido ao encalhe do TAMEGA, ocorrido a 12/01/1972 no banco da barra, localizado a cerca de 400 metros para oeste do farolim de Felgueiras, motivado pelo seu grande assoreamento, passando aqueles navios a utilizar o porto de Leixões. O TAMEGA safou-se pelos próprios meios passados cerca de 45 minutos, acabando por atracar ao cais de Gaia. Apesar da vinda de Leixões do rebocador MONTE XISTO, que não chegou a actuar.

O TAMEGA entrando a barra do Douro, após se ter libertado do banco de areia em 22/01/1972 (c) Rui Amaro /.

O DARINIAN, 83m/1.533tb, foi construído em 1947 pelo estaleiro Henry Robb, Ltd para Ellerman & Papayanni Lines, Ltd., Liverpool e eventualmente servia a partir de Londres o armador associado Ellerman Wilson Line, Leith, 1970 KOSTANDIS FOTINOS panamiano, 1971 TANIA MARIA libanês; 1973 NEKTARIOS cipriota. A 16.04.1978 naufragou em Perim Island, perto de Aden, tendo sido abandonado pela sua tripulação de cerca de 12 elementos, que foram resgatados pelo navio-motor indiano JAG DEESH, matriculado em Bombaim. Aqueles navios eram agenciados na praça do Porto durante os seus tempos pelas firmas consignatárias Charles Coverley & Co., Wall & Westray & Co. e por fim pela Wall & Co.
Fontes: Comunicação Social, The Ships List, Miramar Ship Index, Plimsoll Ship data/LR, Time Line, UBoat.Net
(Continua)
Rui Amaro

domingo, 12 de julho de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇAO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES - Episódio 6


MUDANÇA DE VAPORES DO LUGAR DA RIBEIRA PARA OS LUGARES DO MONCHIQUE E STO. ANTÓNIO DO VALE DA PIEDADE EM SITUAÇÃO DE CHEIA NO RIO


O DAGBJORG, mais tarde denominado VANG, no rio Douro, lugar dos Vanzelleres, margem de Gaia /(c) postal ilustrado da cidade - colecção F. Cabral/.

Relato do piloto José Fernandes Amaro Júnior, respeitante ao seu serviço de mudança de ancoradouro do vapor Norueguês VANG.
«A 23/11/1927, o capitão do porto do Douro mandou chamar os pilotos da barra para tratarem de mudar ou reforçar as amarras de alguns navios surtos no porto comercial do Douro, devido à ameaça de uma grande cheia, que aliás já levava corrente de água impetuosa e a chuva continuava sem parar. Então, os pilotos Afonso da Costa Pinto, Júlio Pinto de Carvalho, Eurico Pereira Franco, José Pinto Ribeiro, Manuel Pinto dos Reis, Amaro António da Fonseca, Joaquim Matias Alves e eu, equipados com capa de oleado, capuz ou sueste e botas altas de borracha seguimos para cima no carro eléctrico, uma vez que o pessoal assalariado ou eventual das nossas embarcações das amarrações se recusara a embarcar.
Chegados ao lugar da Ribeira, o capitão do porto acompanhado pelo patrão-mor indagou sobre a não presença das catraias, ao que nós o informamos, que a quase totalidade das companhas se recusaram a embarcar porque entendiam, que ganhavam muito pouco quando chamados a trabalhar em águas perigosas de cheia, devido ao enorme risco que corriam. Então, o capitão do porto ordenou para tratarmos de contactar as agências consignatárias dos vapores para arranjarem pessoal e barcos, além de nos apressarmos porque a noite estava a aproximar-se, e esperava-se mais água de cima. O piloto mais antigo, que era o Afonso da Costa Pinto, ficou encarregado de organizar o serviço, que ficou assim distribuído: Lugre português PORTO D’AVE, piloto Manuel Pinto da Costa; vapor norueguês HANSI, piloto Joaquim Matias Alves e o vapor norueguês VANG, ficou sob a minha responsabilidade, cabendo aos restantes pilotos orientar os trabalhos de reforço de amarras de mais navios fundeados no rio Douro. Sendo assim, dirigi-me ao escritório do agente do meu vapor, a firma A. F. Reis & Ca., Lda., da rua dos Ingleses e disse ao empregado, que precisava de seis homens e um barco para prestar assistência às manobras de desamarrar e amarrar o VANG, que iria ter de mudar para fundeadouro mais seguro, visto os remadores dos pilotos terem-se recusado a fazer o serviço. O empregado disse-me que podia ir para bordo, que ele iria dar andamento ao meu pedido e, também avisar o mestre do rebocador BURNAY 2º. Fui para bordo, juntamente com um empregado da agência, que pagou 5$00 ao “boatman”.
Chegado a bordo, comuniquei ao capitão para preparar a máquina, tendo-me dito, que estava tudo em ordem para iniciar a manobra. Virou-se o ancorote dos pilotos à popa, o qual com a quantidade de gravalha e a forte corrente, rapidamente veio ao lume de água e logo a seguir mandei largar o cabo do peoriz do noroeste e fui para o castelo da proa para orientar melhor a manobra, tendo constatado que os ferros estavam com duas manilhas na água, pelo que decidi mandar soltar os cabos do peoriz à proa, que estavam mordidos, os quais tiveram de se virar com auxilio do guincho para ficarem safos. Resolvido o problema, fui, novamente para cima da ponte do comando e suspendeu-se os ferros. Entretanto, dado que o rebocador ainda estava ocupado noutras tarefas fluviais, prescindi do mesmo. Foi-se arriando o vapor de popa com a máquina devagar à ré ou avante conforme as necessidades. Pouco tempo depois, apareceu o barco com os seis homens para as fainas de amarração. Disse-lhes para esperarem à proa do vapor português IBO, pois iria amarrar o VANG pela sua popa, no lugar do cais do Monchique.
Quando, ao sabor da corrente mas de marcha à ré e em certos locais de marcha avante, a fim de passar safo da penedia das Lobeiras de Gaia e do banco de areia da Porta Nova, que ladeiam um restrito e dificil canal de navegabilidade, alcancei o IBO, e após passar safo dos seus ferros, mandei largar os dois ferros de uma só vez e o barco com seis homens foi largar o ancorote dos pilotos, pelo sudoeste ao lançante e passar cabos reforçados para os peoriz em terra.
Finda a manobra de amarração, o barco com os seis homens, que me prestaram uma valiosa colaboração nas manobras, levaram-me de seguida para bordo do HANSI, a fim de eu ir auxiliar o meu colega Joaquim Matias Alves na manobra de amarração daquele vapor em Santo António do Vale da Piedade. Terminado o serviço viemos numa catraia dos pilotos para o Ouro e depois a pé, juntamente com a companha da catraia para a Cantareira, onde chegamos cerca das 22h00.
Note-se, como se deve ter entendido, que não realizei qualquer manobra de rotação, visto o VANG não ir de saida, e mesmo neste caso, com ou sem assistência de rebocador, só o faria diante dos lugares da Ribeira ou em Massarelos, onde havia mais espaçamento para manobrar com um minimo de segurança, dado que o rio Douro é bastante estreito. Os mestres dos rebocadores em ocasiões de cheia no rio, por vezes recusavam-se a pegar nos navios, receosos de perigar as suas embarcações e as respectivas equipagens».
VANG, 60m/678tb, 9 nós, entregue em 06/1901 pelo estaleiro Akers Mekaniska Vaerts, Christiania (Oslo), como DAGBJORG para a A/S Dagbjorg (J.P.Pedersen mgrs), Christiania; 1914 BENEDICTE, A.Andersen, Christiania; 1927 VANG, Vangs Rederi A/S (Severin Lyngholm mgrs), Haugesund; 11/09/1944, quando em viagem de Drammen para Trondheim, foi torpedeado e afundado pelo submarino britânico HMS VENTURER ao largo de Lista, Noruega, 58.03N/06.34E, tripulação salva.
HANSI, 72m/1.028tb, 9,5nós, entregue em 02/1922 pelo estaleiro Verein. Elbe Norderwerft A/G, Boizenburg, como OTRANTO para Hamburg Amerika Linie, Hamburgo; 1923 OTRANTO, Deutsche Levante Linie, Hanburgo; 1924 HANSI, D/S A/S Forto (Leif Erichsen Rederi, mgrs), Bergen; 06/11/1939 Perdeu-se por encalhe devido a falha de máquina, quando em rota de Hommelvik para Ellesmere Port com carregamento completo de pasta de papel encalhou em Reefdyke, Orcadas. Posto a flutuar no pico da maré-alta, devido a entrada de água, acabou por encalhar e mais tarde submergir em Linklet Bay, N. Ronaldsway, tendo a tripulação abandonado o vapor nos botes de bordo, a qual foi acolhida por habitantes locais.
Fontes: Miramar Ship Index. Plimsoll LR, Norwegian Merchant Fleet 1939/45.
(continua)
Rui Amaro

sexta-feira, 3 de julho de 2009

SUBSIDIOS PARA A HISTÓRIA DA CORPORAÇÃO DE PILOTOS DA BARRA DO DOURO E PORTO ARTIFICIAL DE LEIXÕES - Episódio 5


UMA MANOBRA DE DESAMARRAÇÃO EMBARAÇOSA





Narrativa textual do piloto José Fernandes Amaro Júnior, relacionada com o seu serviço de saída do lugre dinamarquês NORDTRAFIK.
A 26.09.1927, pelas 10h00, fui dar saída ao lugre à vela de três mastros NORDTRAFIK, amarrado diante da prancha do Jones, margem de Gaia. Iniciada a manobra de largada, sucedeu que o ferro da popa estava por baixo do lugre inglês da praça de S. João da Terra Nova GENERAL WOOD e do palhabote da mesma nacionalidade e praça MAXELL-M, e como tal numa posição muito difícil de o colher. Em face da situação mandei a catraia dos pilotos tentar cambar o ancorote por baixo dos dois navios, colocando-se a beta ao gaviete e talhar mas pouco ou nada adiantou. Então pedi ao imediato do GENERAL WOOD para virar o brando da amarra do seu navio, porque se encontrava bastante folgada e assim se procedeu virando cerca de uma manilha, malgrado não se conseguir libertar a amarra debaixo dos dois navios.
À hora combinada, aproximou-se o rebocador BURNAY 2º, que iria rebocar o navio até fora da barra e o mestre Marcelino Justino disse-me, que não poderia esperar por muito tempo, porque tinha uma fragata para levar ao porto de Leixões, sem demora. Passado algum tempo e ainda sem se conseguir safar o ancorote, pedi ao mestre do rebocador para aguardar mais um pouco, o qual me deu de resposta que não poderia esperar mais tempo. Então chamei o capitão e o empregado da agência e fiz-lhes ver que o melhor seria cortar a beta e amarrar o ancorote ao GENERAL WOOD, porque caso contrário teríamos grande demora e sem rebocador e falta de maré o navio não poderia largar. O capitão concordou com a minha sugestão e então ordenei ao pessoal da catraia para proceder de conformidade.
O BURNAY 2º estabeleceu a amarreta, virou-se os ferros à proa, recolheu-se os cabos de terra e desandando o lugre, rumou-se à barra, que a cruzou às 13h40, sob vento fresco do quadrante Norte, já com o pano todo largo desde as bóias dos Arribadouros e após eu desembarcar para a lancha P4, o rebocador continuou a conduzir o lugre, largando-o a cerca de uma milha da barra do Douro, aproando aquele a Noroeste de rumo ao porto de S. João da Terra Nova.
Nesse mesmo dia dei parte ao piloto-mor Francisco Rodrigues Brandão e também comuniquei ao agente consignatário do lugre, a firma Blackett & Ca., Lda sobre o sucedido, além de informar que deixara indicação ao Estêvão dos Ferros para recuperar o ancorote. Ao outro dia, indaguei do José do Conde, arrais da catraia, se tinham conseguido recolher o ancorote, o qual me disse que, possivelmente de bordo do lugre Inglês desamarraram a beta ou alguém se apropriou do ferro, pelo que não foi possível encontrá-lo.
Quanto ao historial do lugre NORDTRAFIK desconheço-o, apenas sei que embora de nacionalidade dinamarquesa fazia armamento na Terra Nova como muito lugres daquela nacionalidade, ou porque eram propriedade de armadores terranovenses ou de dinamarqueses lá estabelecidos.
O lugre GENERAL WOOD era um dos gemeos do PAÇOS DE BRANDÃO ex GENERAL RAWLINSON.
Gravura de um lugre-escuna ignora-se o autor do desenho.
Rui Amaro